A Virada Cultural – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 22/05

A VIRADA CULTURAL

Sabemos todos que a política “pão e circo” continua firme no mundo. Governos instituem festivais, maratonas, viradas culturais para levar “cultura” à população. No último final de semana ocorreu a Virada Cultural de São Paulo. Ao participar da festa, na condição de turista, percebi o quanto nós ainda somos constituídos em guetos, ou feudos. Vejamos alguns exemplos só no campo da música: na Avenida Paulista, na Casa das Rosas, lugar dedicado à poesia, uma burguesia intelectualizada extasiava-se com um show capenga de Alice Ruiz e Alzira Espíndola. O mesmo público, dono que é do “bom gosto cultural”, continuava achando o máximo a cantora Mônica Salmaso, mesmo que a voz da cantora exija um total silêncio para ser apreciada, coisa que um palco aberto, às margens de Avenida Paulista, jamais permitiria. Não muito longe dali, na Praça da República, a banda de pagode Raça Negra extasiava outra multidão, que sequer sonha a existência da Casa das Rosas. Por outro lado, os donos do “bom gosto” e “daquilo que realmente é bom e cultural” não colocariam seus pezinhos brancos numa praça repleta de gente que gosta de música “que não presta”, que é manipulada até o osso pela última moda da indústria cultural. E os feudos continuam por toda a cidade: vizinho a tudo, no Largo do Arouche o gueto dos LGBTT. Na avenida São João, o feudo dos roqueiros. Perto do Vale do Anhagabaú, artesãos rastafáris acampavam ao som do Raggae; no marco inaugural da cidade os psicodélicos levitavam ao som de um blues experimental.

A diversidade pode ter sido contemplada no circo montado na cidade de São Paulo, no entanto, de maneira geral, ainda não conseguimos ser diversos, ainda não nos misturamos efetivamente, o que se tem é uma sociedade bastante feudal, cada um no seu quadrado, falando para o seu próprio grupo, estabelecendo ainda mais as fronteiras sociais e culturais que nos constituem. Diversidade sim, porém, sem entrelaçamento, sem contato efetivo entre as pessoas. Trata-se de uma diversidade da boca pra fora, pois no fundo, cada um continua ilhado nos seus “gostos”, essa ditadura que, muitas vezes, impede de ver a beleza além do preconceito.

Rubens da Cunha

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2 respostas para “A Virada Cultural – Crônica de Rubens da Cunha

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