Crônica da Semana, por Marco Vasques

AHZERITURIS E OS BEIJOS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [27/05/2013]

 

            O beijo tocou sua mão, secular. Ahzerituris não sabia e nem podia se livrar daquele primeiro beijo que gerou a sucessão de muitos outros. Sua linguagem começou pelas mãos, quando recebeu o primeiro beijo, ainda no útero materno. A própria mão já não era mais identificada como mão, mas como o beijo de Ahzerituris. Uma bola de fogo a tocar corneta entre seus dedos, braços, e, depois, por todo o corpo. Como desejou se despir daquela miríade de beijos, uns mais sufocantes que outros!

Seu corpo, agora, era uma ânfora de guardar beijos. Mesmo que não quisesse, e por mais força que fizesse, lá estava Ahzerituris: no altar, levando o beijo abominável do padre babão e tarado. Ahzerituris, que nunca frequentou qualquer reunião religiosa — em seu planeta isso era perfeitamente normal e saudável —, sempre ao badalar do ângelus, já sabia de sua desgraça. Nas segundas e terças-feiras o beijo era colhido no altar, nas cerimônias de casamento.

Assim, Ahzerituris ia se metamorfoseando em ósculo. Estava nas enfermarias, no metrô, no ônibus, no avião, nas maternidades, nas escolas, nas repartições públicas e privadas, nos motéis, nas praias, nos bosques, nas praças, nos escritos antigos e modernos, nos manuais para iniciantes. Todos os beijos, por uma força magnética inexplicável, caíam em seu corpo desesperado, agora sujo na imensidão dos lábios.

Quando percebeu que perdera toda a sua humanidade e que não passava de um gesto mecânico, insípido e de decoração social, Ahzerituris — que de homem sensível se tornara bibelô de salão de festa — esculpiu em mármore a imagem de um beijo terno e desapareceu do planeta Aicos, onde sua personificação já havia se pulverizado pelo excesso de uso e pela mecânica cotidiana. Contam os arbonióis, povo do planeta de Arbono, que Ahzerituris se transformou na mais bela puta do planeta Terra. Essas mulheres, maravilhas dos solitários, não beijam os homens que amam.

Contudo, desistiu deste planeta também e esculpiu, agora em ferro, um beijo com bafo de ferrugem acariciando uma parede de concreto. As últimas notícias afirmam que Ahzerituris se encontra, nas segundas-feiras, no meio de uma reunião de macacos sem rabos e com olhos em forma de lança-chamas. Os assuntos das assembleias são os mais disparatados. Um dos macacos, que tem rabo mais preso que gato de porcelana, decide reformar tudo o que há em arte e política no planeta em que habita. Enervado, acusa seus iguais de crimes que ele mesmo, em outras épocas, julgava serem um ato sereno e natural. Ahzeturis entra em absoluto estado de derrisão. Enojado, procura outro lugar para amenizar a sua dor febril.

 

 

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