O eterno retorno de tudo – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 29/05/2013

O ETERNO RETORNO DO MESMO

Entre os anos de 1940 e 1950, Magdala da Gama de Oliveira foi uma colunista de jornal que entrou para a história por desferir duros e contínuos golpes no samba. Seu discurso cristalizava algumas décadas de preconceito racial e social que o samba sempre enfrentou. No ano de 1956, Haroldo Barbosa e Janet de Almeida fizeram um samba para responder aos ataques de Magdala. A letra diz: “Madame diz que a raça não melhora / que a vida piora / por causa do samba. / Madame diz que o samba tem pecado / que o samba é coitado / devia acabar. / Madame diz que o samba tem cachaça / mistura de raça, mistura de cor. / Madame diz que o samba é democrata / é música barata sem nenhum valor. / Vamos acabar com o samba, / madame não gosta que ninguém sambe, / vive dizendo que o samba é vexame / pra que discutir com madame?”

Recentemente, a estudante Mariana Gomes teve um projeto de mestrado aprovado pela Universidade Federal Fluminense, intitulado “My pussy é o poder. A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro”. A ideia é discutir as relações de gênero e o feminismo no cenário do funk. O projeto caiu na mídia e a Magdala dos nossos dias, a apresentadora e “comentadora” do SBT Rachel Sheherazade, proferiu seus ataques ao projeto e, claro, ao funk: “O funk carioca, que fere meus ouvidos de morte, foi descrito como manifestação cultural. E o pior é que ele é, pois se cultura é tudo o que o povo produz, do luxo ao lixo, o funk é tão cultura quanto bossa nova”, diz ironicamente a apresentadora, que perpetrou mais alguns preconceitos em horário nobre e, claro, cristalizou os velhos preconceitos raciais, de gênero e de classe que moviam a articulista dos anos 40.

Muito do discurso proferido hoje contra o funk ou o tecnobrega é praticamente o mesmo que proferiam contra o samba e não é de ordem musical, mas sim de ordem social: manifestações culturais vindas da periferia, que atacam frontalmente a “alta cultura”, a sexualidade presa e a brancura imaculada dos donos do “bom gosto” cultural são achincalhados diariamente. Para comprovar isso, basta substituir “samba” por “funk” na letra de Haroldo e Janet que temos o resumo de muito do que se diz hoje a respeito das manifestações periféricas.

Rubens da Cunha

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2 respostas para “O eterno retorno de tudo – Crônica de Rubens da Cunha

  • Felipe R. Severino (@felipeseverino)

    E a pergunta que não quer calar é: Por que essa demonstração de repulsa da elite brasileira (representada por Sheherazade) pelo funk?
    Será isso reflexo do ideal de cultura imposto a nós, que diz que o que é bom vem dos EUA e/ou da Europa, e não nos desafia a questionar sobre a qualidade e a adequação à nossa realidade?
    Valesca Popozuda me representa muito mais que Rachel Sheherazade.

    • Revista Osíris (Marco Vasques / Rubens da Cunha)

      Pois é Felipe,

      tem todo um jogo aí de valores que as pessoas não fazem a mínima reflexão.
      O ataque ao funk raramente é de ordem musical, porque se fosse de ordem musical a pessoa teria que discutir com Tom Zé, Caetano Veloso, Lulu Santos, e até mesmo com Paul Mccartiney que são defensores desse estilo musical. Por isso a coisa toda fica no registro do “bom gosto”… enfim… também sou bem mais representado pela Valesca e pela Gabi Amarantos 🙂

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