Crônica da Semana, por Marco Vasques

HEBDOMADÁRIO DA BELEZA 

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia[03/06/2013]

A beleza pode mudar de lugar. Sempre muda. Você olha para uma mendiga, no Mercado Público, passando na ala em que a elite econômica da cidade se encontra. É sábado pela manhã. Ela passa de cabeça baixa, roupas rasgadas, um dos chinelos arrebentado, cabelos empapados, umas manchas no corpo, unhas dominadas de poeira e sujeira, calça colada num corpo cansado e usado. Seu andar denota uma libertação das coisas mundanas. É preciso ser mundano para negar o mundo das relações medidas pelo poder econômico. Aquela mulher carrega toda a poesia matutina em sua passagem; sua paisagem, assim humana, quase desumana, é um ponto de luz em toda a sujeira acomodada dos homens.

A beleza deve mudar de lugar. Muitas vezes se instala nos espaços inimagináveis. É início de tarde, terça-feira, em frente ao presídio, mulheres perfumadas, maquiadas e ansiosas por reencontrar seus homens. Elas ignoram suas sentenças. Sentadas no paralelepípedo desejam que os portões se abram, para que elas entrem na luta corporal, na luta incógnita do desejo e do prazer. Há uma cor poética que consome a luz de cada olhar dessas fêmeas que ignoram a muralha do crime, a muralha da moral, a muralha dos repetidos preconceitos. Elas amam seus homens e cospem no rosto da vergonha. Beleza incomum para amores inverossímeis. Não são sádicas, loucas ou bandidas, como quer o senso comum: são mais líricas que o maior dos poemas líricos. O arrebol daquela tarde indecisa tem a cor do sangue dos corpos lúbricos daquelas mulheres docemente perfumadas.

A beleza quase sempre está onde não temos o hábito de olhar. Eles, pequenos índios, passam de mesa em mesa pedindo esmolas. Não. Eles não são “apenas duas crianças pedindo esmola para mais um adulto explorador”, como anuncia o homem da mesa ao lado. Por trás daquelas duas crianças existe um processo de mais de 500 anos de história. Mais de 500 anos de combate, luta, aniquilamento, desapropriação; portanto, eles não são“apenas duas crianças”, pois sobre elas pesam séculos de exclusão e extermínio.

Em outra mesa, uma moça, negra, cabelos encaracolados, olhos tão negros quanto sua pele, solta algumas lágrimas na tarde de sexta-feira. Não era apenas a empatia dos excluídos, mas um ritual de semelhança viva. Aquele choro, nas mãos dos pequenos índios, um ato épico, mais épico que o maior dos poemas épicos.

A beleza — não a beleza da prosperidade, da falsa felicidade e da assepsia das revistas de moda, jornais, televisões —nesta tarde de domingo, se revela, de maneira sutil, no silêncio das tristes putas da Conselheiro Mafra.

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Uma resposta para “Crônica da Semana, por Marco Vasques

  • Eliane Testa

    Saudações poéticas!
    Olá! Marco Vasques, adorei a crônica. quanta beleza.
    Sou professora de literatura (UFT) e tenho tentado entrar em contato com você, mas não tenho consiguido contato.
    Por favor, se puder deixar aqui em endereço de e-mail agradeço.
    Eliane Testa

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