Crônica da Semana, por Marco Vasques

NELO E CAMÕES

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/06/2013]

Não há novidade alguma para os leitores quanto ao perfil da Dona Lindomar. Ela ama o Córrego Grande e toda a sua gente simples e honesta. Ama     todos os botecos do bairro. E ama, também, uns personagens tortuosos. Nutre profundo apreço por essas pessoas que parecem ter nascido por um péssimo acidente, pois elas já entram na vida com cicatrizes nos olhos. Não há conselho a ser dado; não há nada a fazer, pois nasceram para ser estranhos no mundo, estranhos para o mundo. Tudo o que é visto com normalidade por todos, para eles, têm significado diverso. Então, como se pode supor, esses seres desajustados são os poetas vivos. Vivem na carne toda a poesia que possa povoar a mente dos pseudospoetas do Centro de Letras da UFSC ou dos bares chiques da Bundópolis, por exemplo.  

Nelo é um desses personagens. Não tem jeito. Ele não larga a garrafa de cachaça. Bebe daquela bem vagabunda, barata, vendida em recipiente de plástico.  Nelo é o único boêmio sério e honesto com o vício que Dona Lindomar conhece. O líquido estonteante é a sua primeira refeição. Na verdade, ele vive trançando as pernas, se arrastando nos muros.

Dona Lindomar já juntou Nelo umas dezenas de vezes das calçadas. A gente dita normal, a gente que trabalha, come, dorme, faz um sexo vez por outra parece nutrir uma assepsia idiota em relação ao Nelo. Não faltam, nunca faltarão, aquelas figuras que o tratam com desprezo e nojo, mas Dona Lindomar sofre de encantos por ele. Adora seu olhar irritado com o mundo, sua pele descuidada, suas pernas cambaleantes, sua indiferença ao mundo econômico, seus cabelos descuidados, sua vestimenta permanente e, sobretudo, a poesia que carrega feito um Sísifo, que vive contente na dor.

 Quando o encontra, Dona Lindomar lembra dos versos de grandes poetas. Ontem veio à sua cabeça: “a tristeza é o meu estado de alegria”. A nossa velhinha — que anda fugindo dos bares em que os intelectuais, de ideias de concreto, e dos poetas que se intitulam radicais e esbravejam suas raivas contra tudo e todos — anda com pendores poéticos.

No entanto, Cesário Verde e Camões são sempre boas lembranças. É uma blasfêmia comparar os bardos com os esforçados das letras de Bundópolis. A cada encontro com Nelo, um poema, um verso surge. Semana passada, após levar um prato de comida para ele, que estava escorado no muro, se viu pensando: “Os bons vi sempre passar/No mundo graves tormentos;/E para mais me espantar,/Os maus vi sempre nadar/Em mar de contentamentos./Cuidando alcançar assim/O bem tão mal ordenado,/Fui mau, mas fui castigado:/Assim que, só para mim/Anda o mundo concertado”.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: