O EMARANHADO DA ESCRITA E DA LEITURA – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 12/06/2013

O EMARANHADO DA ESCRITA E DA LEITURA

Há quanto tempo me exponho nas páginas do jornal? Há quantas quartas tomo de assalto um canto qualquer do leitor e o armo com palavras. Escrever talvez seja isso, armar o outro com uma ideia, dar ao outro um conjunto de sentidos que, ao serem recebidos, jamais serão iguais àqueles que foram doados no ato da escrita.

Emaranhado que nunca se separa: escrita e leitura. Emaranhado que me constitui desde que me conheço, desde que criava as primeiras letras com pedras e sementes de cipó e abacate e pedia para a mãe ler, desde que o tempo era todo infância e nada das ordens, dos prazos, dos achaques do mundo se faziam sentir. Escrita e leitura entranharam-se em mim e desse corpo magro que me foi dado nunca saíram, nunca quiseram sair, mesmo que eu as tenha expulsado algumas vezes. Mas me conheço, sei que meus expulsamentos são frágeis, fáceis de serem desobedecidos. Quando menos esperava lá estavam a escrita e a leitura irmanadas nos meus olhos e nos meus dedos.

Seria destino esse contínuo apego à leitura e a escrita? O que eu teria sido em tempos passados? Que tipo de cronista e poeta eu fui ou não fui para agora ser este que se despeja semanalmente no jornal? Às vezes penso que eu poderia ser mais escritor, mais radical na escolha, no enfrentamento de tudo, ou um leitor mais ávido, mais amplo nas escolhas. Noutras acho que, como diria o samba de Paulinho da Viola, “fiz o que pude”. E continuo, continuo meio Sísifo meio Hércules trabalhando nesse doce emaranhado da escrita e da leitura. Continuo achando que a palavra escrita ainda é uma revelação, um acontecimento transformador porque é feita da matéria- prima daquilo que nos constitui: a linguagem.

Todas as expressões artísticas são reveladoras, mas a escrita e a leitura (sim, porque ler também é uma arte) possuem um mistério gozoso e doloroso que transpassa o humano. Daquele transpassar que mata e salva, que atordoa e revela. Transpassar da palavra dizendo mais do que seu significado aparente, mais até do que ela pode dizer. É uma liberdade. Talvez por isso, por exercer esse poder, é que me despejo há tanto tempo nestas páginas, nestas quartas.

Rubens da Cunha

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