Crônica da Semana, por Marco Vasques

O BAR DO MINGA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [17/06/2013]

 Se o sujeito quer relaxar, jogar conversa fora, rir, passar umas horas à toa, saber das notícias mais quentinhas da cidade, ficar bêbado com pouco dinheiro e se livrar de uma intelectualidade pretensamente sábia, pode encontrar refúgio no Córrego Grande. São muitos os bares em que o indivíduo pode se esconder. Cada bar tem característica, público e repertório próprios. Mas, no geral, a coisa é mais ou menos igual: muita cachaça, falatório sobre mulheres ― sobretudo as dos outros ―, muita cerveja, dominó, baralho, cigarros, salgadinhos, muita ciência intuitiva e bastante palhaçada, de todos os gêneros.  

O bar do Minga, por exemplo, tem uma característica muito peculiar. Ele não se importa se vai ou não ter freguês. Não abre o bar para os clientes. O Minga abre o bar para si mesmo. Cedo, muito cedo para os padrões do bairro, já está com a porta aberta. Senta em uma das poucas mesas e ali fica olhando a paisagem e cumprimentando as pessoas que passam. Se a solidão se instala, começa, ele próprio, a tomar uma geladinha seguida, obviamente, de uma boa cachacinha.

Minga fica ali brincando com o seu cão ― mais fiel que qualquer cliente―, esperando o recesso para o almoço. Nessa hora, um e outro cliente mais assíduo aparece para se juntar ao já mais sorridente dono do bar. Recebe todos com a alegria habitual e espera, calmamente, que todos bebam o aperitivo para abrir o apetite e fechar o bar para almoçar. Come, dorme um pouco e lá pelas três da tarde reabre, firme, para mais umas horas de tranquilidade.

Somente lá pelas seis da tarde, os fregueses habituais começam a se instalar, melhor dizendo, os amigos habituais. Porque é sempre a mesma turma que se reúne para, digamos, molhar a garganta após um dia de trabalho. Mal escurece e a galera começa a aparecer. Conversa vem, conversa vai e o Minga sai de traz do balcão para jogar um dominó e compartilhar uma cerveja. É assim quase todos os dias. Fato que nos leva a crer que o melhor cliente do bar do Minga é o próprio Minga. É provável que ele seja o mais feliz dos boêmios, pois tem um bar só para ele. 

Outra coisa curiosa e extremamente original é que, com alguma intimidade, se pode até tomar umas cervejinhas com o Minga e dividir a conta. Agora, convenhamos, só o Minga para dividir a conta com o cliente. Sem falar na cachaça de butiá que ele faz e oferece sem ônus algum ao cliente. No Córrego Grande acontece de tudo. Tem gente que vende um só coelho por três vezes, pode? No Córrego pode! O Minga é a prova concreta de que no Córrego, em se plantando, tudo se dá! 

 

 

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