O Paraíso – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 19/06/2013

O PARAÍSO
O paraíso tem endereço, diz a propaganda de um edifício luxuoso. Mas o que seria o paraíso, ou melhor, onde ficaria o paraíso? Pode, aparentemente, ficar no apartamento vendido para a alta classe, mesmo que no entorno o paraíso não seja assim tão visível. O paraíso estaria nas belas paisagens do litoral, nos altos da serra, nos chapadões? Porém, como sabemos, o paraíso litorâneo anda bastante poluído, precisando urgente de uma expulsãozinha dos humanos, para que ele volte a merecer o nome. Na serra e nos chapadões, o desmatamento mata o paraíso.

Pensando mitologicamente, ou religiosamente, como queiram, Adão e Eva foram expulsos do paraíso e desde então estamos tentando voltar a ele: um lugar de benesses eternas, sem obrigações, sem a presença diária do medo da morte, esse medo que a tudo move. Esse medo que nos afasta sempre do paraíso, ou da ilusão de paraíso que podemos ter na vida. Albert Camus dizia que o inferno é o paraíso mais a morte. Parece mesmo não haver escapatória, segundo o escritor existencialista.

O paraíso seria a felicidade? Esse estado confundido muitas vezes como um fim, uma coisa a ser alcançada. Talvez quando se acabar essa confusão e a felicidade for encarada realmente como algo que está aí, que se incorpora nos atos, nos gestos, nas brevidades de tudo, a felicidade não seja mais um paraíso impossível, mas algo que se presentifica na vida. Porém, estamos tão imbuídos em chegar à felicidade que pouco observamos o caminho, o trajeto. Fica cada vez mais evidente que a busca por uma felicidade paradisíaca se dá quase sempre por uma estrada de infelicidade. Por certo, a estrada errada para o paraíso.

Os enfrentamentos da vida são os mesmos: dor, agonia, angústia, medo. São enfrentamentos dos quais não escapamos, porém, há outras coisas que também nos atravessam: alegria, amor, solidariedade. O que diferencia uma pessoa da outra é a forma como encara a inexorável miséria humana e a inexorável grandeza humana. Alguns optam pela fé, outros por olhar direto nos olhos do desespero, outros por um andar calmo, resignado até. O que não tem remédio, remediado está. Outros optam por algum equilíbrio, um olhar que desvende o paraíso que ainda resta dentro de cada pessoa.

Rubens da Cunha

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