Maremoto ou marolinha? Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 26/06/2013

MAREMOTO OU MAROLINHA?

A onda de protestos levantou a poeira no Brasil e do Brasil. Colocou a nação no mapa dos grandes protestos mundiais acontecidos recentemente, apesar de nos faltar um pouco de foco. Aliás, essa questão do foco, do motivo do protesto, talvez tenha sido aquilo que gerou os maiores embates e debates. Nascido em São Paulo, com um motivo específico, o da redução das tarifas de ônibus, a onda se alastrou por todo o País misturando concepções de mundo bastante diferentes, e levando a crer que todos os protestos tinham mais um tom apartidário, desideologizado, desconectado das forças mais progressistas que iniciaram tudo. O que se viu foi uma onda que abriu espaço também para um certo reacionarismo, um certo patriotismo bastante perigoso, porque saudosista de Figueiredos, Geisels, Médicis e afins.

As informações são contraditórias, chegam aos montes pelas redes sociais, alguns pensando que tudo foi tomado pela mídia e por setores conservadores da sociedade, que todas as demandas concretas viraram mesmo abstrações como “ser contra a corrupção”, ou “o gigante acordou”. Outros acreditam que a força de todo o movimento e transformações advém justamente da surpresa causada pelas manifestações desfocadas.

Todo esse movimento foi muito importante, se pensarmos de forma macro, no entanto, é no micro, naqueles metros quadrados que cabe a cada um de nós na vida, que as transformações precisam realmente acontecer. De nada adianta ir manifestar-se contra a corrupção, se na primeira oportunidade vamos subornar um fiscal, furar um sinal vermelho, tirar uma vantagem indevida em um negócio. De nada adianta dizer que “o gigante acordou” se não temos a mínima noção do que é feito numa câmara de vereadores, se não lutamos por melhorias efetivas em escolas, hospitais e afins, se não pensarmos coletivamente em nossa rua, nosso bairro.

Que todo esse levante traga uma consciência política mais efetiva aos brasileiros, que possamos discernir entre valores democráticos que buscam igualdade e justiça social daqueles que querem apenas manter os privilégios, ou pior, trazer ao poder uma concepção de mundo moralista e hipócrita. É preciso ter cuidado para que a onda não se torne um maremoto conservador e nem uma marolinha progressista incapaz de alteração na ordem vigente.

Rubens da Cunha

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