O tempo é suficiente? – Cronica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 03/07/2013

Estranha essa coisa de contar o tempo. Tudo divididinho, organizado em segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios. Olhando os últimos períodos de tempo, temos a sensação de sermos privilegiados, pois adentramos um novo milênio, ou seja, se pensarmos na história da humanidade como sociedade organizada, não temos muitos milênios.

Claro, tudo pode ser uma ilusão, essa coisa de encaixotar o tempo, de tentar prendê-lo em números, ou mesmo ver o tempo como uma linha reta que segue para frente ad infinitum. Isso dá uma certa segurança, a segurança de que estamos caminhando, atravessando o tempo, de que não estamos parados ou andando em círculos, repetindo tudo. O que conseguimos nesse último século foi globalizar completamente a vida, encurtar distâncias e ter a sensação diária de que nos falta tempo, de que as coisas estão passando rápidas demais: “Já estamos em julho”, “já estamos em 2013”, “já é quase verão de novo”, “está tudo passando tão rápido”, “a vida é curta” etc., etc., são expressões que usamos o tempo todo, justamente porque parece que estamos perdendo o tempo e que nosso sistema ilusório de encaixotá-lo não funciona mais.

Basta imaginar como reagiria um indivíduo que viveu em 1013 se viesse para cá, agora, se visse que ele pode voar e, em menos de uma hora, estar a 500 km de distância de onde estava. Se ele visse que algo acontecido no outro lado do mundo pudesse ser visto por ele no mesmo instante? E o contrário, o que aconteceria se algum de nós parasse em 1013, se recebesse pela cara outra sensação de tempo, tempo demais para chegar à vila vizinha, tempo demais para “saber” das coisas, tempo demais para esperar.

Num poema intitulado “Carta aos mortos” Affonso Romano de Sant’Anna diz que em essência nada mudou: “Os salários mal dão para os gastos, as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis, embora o avanço da medicina.” No final do poema, Affonso é preciso ao dizer que “cada geração, insolente, continua a achar que vive no ápice da história.” Assim, continuamos em essência muito parecidos com os nossos antepassados, apenas mais transpassados pela falta, pela busca e pela pergunta constante: o tempo que nos resta será suficiente?

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