Crônica da Semana, por Marco Vasques

Ahzeturis

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [08/07/2013]

            559. Sei que vocês não estão compreendendo. Isso é só uma questão de tempo, porque aqui dentro, eu, Ahzeturis, para alguns Ahzeturius, mais conhecido pela mitologia Zúbia como aquele que ninguém vê, disponho de uma eternidade esticada em fios elétricos e estendida em asfalto. Eternidade de granito em esquecimento, mercúrio sólido. Quem me procurar terá a desventura de nunca olhar a si mesmo, pois quem me procura já se perdeu. O azul de Mefisto na carne e nada de missas e salvação. O invisível inválido engole metáforas. Poucas vidas espumam nas paredes aquosas das pedras marítimas.  A dor dúbia das tormentas e a fratura do existir é detectada nas mãos de uma criança que toma sorvete ao lado esquerdo da rua. O equívoco do dia e da noite que se pretendem atenuantes do amanhã: sempre hoje. Ahzeturis não morre, lateja. Esqueleto de carne no brilhar do sol e no respirar da lua. Quando me levaram às pedras e enfiaram um lençol dentro de mim, tudo que era branco se avermelhou. Na enfermaria, ao me despirem de meu lençol, minha vida ficou nua, mas como sempre, ninguém viu. Ahzeturis, Ahzeturis, tua desgraça é a ausência de fé. Uma voz ao longe chama. 560. Flor seca dentro de um livro ou fotografia antiga. 561. Funeral de pássaros e trinar de homens. A fala, uma canção. Árvore plantada em concreto sangra os braços para abraçar o céu. 562. Mesa branca cortada em fatias? O sangue ainda nos persegue. 563. Asfalto humano nas corredeiras lodosas. 564:565. Ahzeturis. E perseguem a corredeira de sangue entre as pernas. Só querem o cheiro. Um pouco de dor alivia o amortecido da vida. Sem casa no corpo, sem corpo na morada. Enfiaram todas as dores no meu intestino. Câncer é um ser divino na Zúbia. Onde a morte não se instala, o sofrimento se alonga. Morrer é entregar a carne para padres, todos podres com seus pênis defecadores. 566. No banho até o sangue é tormenta. Tempo hipócrita o que nos acompanha. Aqui não há forma de governo saudável. Nem anarquia de idiotas. Minha biografia está pedra. Sou a pedra mais líquida de minha galáxia. Escorro até a solidez. Quando da invasão dos órgãos, a decapitação total. Sou um fingidor sem ser poeta. Uma espécie de carne abandonada na beira da estrada. Apodreço nas mãos dos algozes. A tortura me fez bem por anos. Primeiro foi água quente sobre a pele. Alicate mordendo os neurônios. Um a um. No estômago, só ácido. Nem um dia de luz aqui, porque o sol já invadiu os olhos. Tudo o que vejo queima. Chamas em toda direção. Assim é a caminhada. Aqui os braços são as pernas. A cabeça rasteja no chão até ser a própria sombra. Aqui a carne é sempre verde.

 

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Uma resposta para “Crônica da Semana, por Marco Vasques

  • paula

    O texto do Marco Vasques está muito bom, cada frase remexe dentro da gente…..é como se o texto fosse uma parte da propria vida.

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