Crônica da Semana, por Marco Vasques

A MORTE SEM A MORTE 

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [15/07/2013]

 

            Não, não se trata de um natimorto. Pois é essa a definição estranha de se estar com a morte sem a morte, porque é como morrer sem ter vivido ou ter vivido sem ter morrido. Ainda, pode-se pensar que um natimorto esteja vivo dentro de outra vida. Ao não nascer respirando, preferiu a eternidade como tempo de vida. Por fim, a análise é complexa mesmo. O assunto também não é o livro “O natimorto”, de Lourenço Mutarelli, e muito menos o filme brasileiro homônimo. Aliás, um filme excelente, a julgar pelas bobagens que vão para as telas. Quase todas financiadas com muito, mas muito dinheiro público. Mas esse também não é o tema, porque, apesar da sua importância, anda bem desgastado no momento.

            O encontro da morte sem a morte ocorre todos os dias. E, claro, só pode acontecer com quem está vivo, ou pelo menos supostamente vivo. São inúmeros os encontros e os estados de se estar morto sem a presença da morte. Um mendigo que nega o sistema balizado nas relações econômicas, por exemplo, pode ser visto como uma carne viva perambulando pela cidade jogando a vida e a morte na cara dos enlouquecidos por grana e poder. Ele pode até não ter consciência da sua ação, mas todo o incômodo que ele traz quase sempre provém de sabermos que nada vale nada mesmo. O abandono das convenções é para quem tem coragem. Um mendigo, quando sai da chamada vida ordenada para o caos das ruas por vontade própria, é um imenso ato de coragem nesta vida permeada por canalhas covardes.

            Ele está dizendo o que todos sabemos. Não devíamos ter esperanças. No entanto, não se pode ser tão binário assim. A invenção das coisas e a imaginação do mundo são salvações que, muitas vezes, nos tiram da estupidez diária. Inventamos a poesia, a literatura, as artes e o amor da mesma maneira que inventamos o sistema financeiro e as simbologias nas relações de poder. O problema, e aí reside todo o esgotamento, é que as nossas invenções de fuga, de colisão acabam se submetendo às invenções redutoras.

Pouco a pouco as podridões das vaidades e das disputas de forças se apropriam das chamadas invenções de fuga. Parece mesmo que tudo é poder, dinheiro e sexo. E todos os mundos simulam as mesmas questões em níveis distintos. Semana passada dois mendigos discutiam para saber quem era o mais mendigo dos dois. Lembraram muito as disputas de falsos intelectuais que nem sabem o que discutem e combatem, sendo o mais importante mesmo combater. Lembram dois executivos, dois poetas, dois gestores públicos. Lembram, enfim, que parece que a morte sem a morte se apoderou das purezas e impurezas de tudo, ou seria do nada?

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