A foto da capa – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 17/07/2013

A foto da capa

Ao ver o novo projeto gráfico do Jornal À Noticia, percebo o destaque dado à foto deste escriba. Difícil não lembrar de uma bela canção de Chico Buarque, chamada A foto da capa. Chico, na sua concisão genial, diz: “O retrato do artista quando moço / Não é promissora, cândida pintura / É a figura do larápio rastaquera / Numa foto que não era para capa / Uma pose para câmera tão dura / Cujo foco toda lírica solapa.” Dizem por aí que os índios não gostam de ser fotografados porque acreditam que sua alma será roubada pela máquina. É mais ou menos como me sinto. Toda a coisa da pose, do colocar-se frente ao fotógrafo, esperar alguns segundos com o sorriso congelado no rosto, aguentar mais um pouco porque é preciso tirar mais uma “para garantir”, são gestos que solapam toda a lírica e que roubam um pouco a alma. Talvez o desconforto de aparecer em fotos seja timidez, mas prefiro acreditar que seja mesmo um medo ancestral de ter a alma roubada. De ser esvaziado. Ainda mais quando se é de um tempo em que o resultado do foto não era imediato, havia toda a espera, o suspense, a possibilidade de que a foto tivesse queimado, ou não saísse boa. Se essa premissa indígena estiver certa, o quanto nos restará de alma num tempo em que tiramos fotos o tempo todo? E as fotos não são apenas de nós mesmos, mas de tudo o que nos cerca. Será que a cada fotografia tirada de um prato de comida para postar no instagram a alma ou a aura desse prato esvanece? Que necessidade é essa de tirar 3000 fotos que dificilmente serão olhadas? Que serão substituídas logo em seguida por outras 3000 fotos praticamente idênticas? Para Roland Barthes, toda fotografia é um certificado de presença, um momento congelado que repetirá indefinidamente um momento da existência que não se repetirá. Assim, jamais essa ação de cruzar os braços, sorrir, fingir naturalidade frente ao fotógrafo se repetirá, no entanto, a fotografia, boa ladra que é, se não roubou minha alma, cristalizou esse instante. Certificou a presença do cronista no tempo e no espaço. Enfim, essas digressões são,como dizem os versos finais da canção de Chico, “o retrato da paúra quando o cara / Se prepara para dar a cara a tapa.”

Rubens da Cunha

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