Crônica da Semana, por Marco Vasques

O BAR DA DELBA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [29/07/2013]

Ele sai do bar pensando que sempre bebe mais do que deve, contudo menos do que gostaria. Não sabe o motivo de tanta ira consigo mesmo. Pensa em Goethe fazendo um dístico para Schopenhauer. Os versos diziam: “Se desejares encontrar prazer na vida/ Deves atribuir valor ao mundo”. Dizem os historiadores que o filósofo não deu ouvidos ao poeta e respondeu acidamente: “melhor conhecer os homens pelo que são do que supor que sejam o que não são”.

Com as pernas desgovernadas, ele nem sabe por qual motivo os alemães se acomodaram nas suas ideias. Tudo o que queria era que a quarta-feira passasse logo, e decidiu explorar o bar da Delba, um dos botecos mais escondidos do Córrego Grande. Lugar ótimo para fugir de tudo e de todos. Óbvio que lá se encontram algumas pessoas, mas são aquelas inofensivas e felizes de sempre, como o lendário Terrível, figura muito conhecida no bairro, e tantas outras que ali vivem embriagando a vida. Ele sentou e foi logo pedindo uma cerveja e uma cachacinha para aplacar o frio que inundou a cidade.

Bebeu que bebeu e agora se encontra trançando as pernas e se perguntando o motivo de tanto beber e, de quebra, caiu na mais milenar das questões: qual é o motivo da existência? Schopenhauer ataca: “a vida é feita de desolações”. Mas que porra, pensa. Que porra de filósofo que não me deixa pensar sozinho. Articulou mais umas dúvidas. Criou uma e outra justificativa que iria dar à esposa, que o espera faz dois dias. Nada do traste aparecer. Com o corpo e as ideias cambaleando, voltou à questão original: por que bebo mais que posso e menos do que desejo e consigo? Qual é o motivo de tanto tormento que provoco no meu corpo? Tudo se embaralhou novamente, o pensamento mais bêbado que as pernas.

“Devemos sempre estar atentos ao fato de que todo homem está sujeito a cair em um estado de depressão tal que o impulsione a lançar mão de uma faca ou de um veneno, no intuito de por um fim a sua existência; e quem se julga imune a oscilações em seu estado de ânimo, pode ser facilmente convencido do contrário por um acidente, uma doença, uma mudança do destino ― ou do clima”.  Mais uma vez o filósofo alemão, sem o menor pedido de licença, entra em sua mente embaralhada por cerveja, pinga e conhaque. “Toda história de vida é uma história de sofrimento”. Por mais que tentasse se livrar das suas leituras, não conseguia. Ler é para ele um ato de tatuar a carne. Bom, tá aí a resposta para a primeira indagação. Bebo para esquecer o mundo, suas vontades e representações. Dobrou a esquina e voltou para o bar da Delba convicto de que iria beber o quanto pudesse e aguentasse.

 

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