Crônica da Semana, por Marco Vasques

 

DEPOIS DO PAPA 

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [05/08/2013]

Sim. É verdade. O papa esteve no Brasil. A mídia ficou paralisada por uma semana. O Brasil, mais uma vez, foi mostrado para o mundo inteiro da forma mais asséptica possível. Como sempre. Afinal, temos uma Copa do Mundo batendo à porta. Claro que não perderíamos a oportunidade de transformar a estada do imaculado homem em mais uma típica novela embalada por um longo, retumbante e bonito final feliz. Em 1988, outro papa visitou uma cidadezinha chamada Melo, no Uruguai. Lá, os artistas César Charlone e Enrique Fernández, indignados, escreveram um roteiro e dirigiram o filme chamado “O banheiro do papa” (2007), mostrando os bastidores que essas aparições papais escondem.

            Se teremos ou não alguém que se dedicará ao “backstage” do papa no Brasil, não sabemos ainda. No entanto, uma pesquisa realizada com 1.3oo jovens que foram à chamada Jornada da Juventude nos revela respostas nada joviais e aponta um triste futuro para um país tão bajulado por ser plural, miscigenado e tolerante. O futuro, infelizmente, não nos conduz à tolerância. Vejamos: dos jovens que foram indagados sobre a postura em relação ao aborto, 75% disseram que o papa deve se manifestar contrário; quanto ao homossexualismo, 71% acenaram ao pontífice o desejo radical de contrariedade; 49% são contra o uso do anticoncepcional e 39% desaprovam a camisinha.

            Qualquer pessoa com um mínimo de escolaridade, ou bom senso, pode perceber o tamanho da catástrofe que nos espera. Uma juventude que vai reproduzir em seus filhos o preconceito, o desrespeito à individualidade e um  irracionalismo obtuso. Se a juventude de hoje apresenta uma estatística tão alarmante, que resultado obteremos ao entrevistar os pais desses jovens? Ah, tem uma outra pergunta que foi respondida pelos imberbes. Perguntaram aos participantes da Jornada da Juventude, durante a visita do papa, o que eles achavam dos protestos, que se espalharam pelo país. Não deu outra. A massa jovem cristã foi praticamente unânime, pois 72% disseram ser contra as manifestações.

            Impressiona como essa gente jovem perdeu a noção de coletividade, a noção de direitos humanos e, sobretudo, a noção de direito individual. São esses altos índices que, de alguma maneira, acabam por legitimar um homem como Marcos Feliciano. Já que o discurso apregoado por ele encontra guarida e ressonância na maioria da comunidade jovem. O papa se foi. A lição está aí. Só há corrupção porque há quem se submeta a ela.  Schopenhauer já disse que “nem o papa acredita no cristianismo” e Nietzsche arremata sabiamente: “é indecente ser cristão hoje em dia.   

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