Crônica da Semana, por Marco Vasques

INFÂNCIA

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [12/08/2013]

Saiu para comprar cigarros. Não sabe bem o motivo, mas sempre que sua mãe chega com a última xepa na boca, os seios caídos pendendo para o lado esquerdo do corpo e solta um berro, mostrando os dentes pretos da nicotina, determinando que ele vá ao bar comprar duas carteiras de cigarros, ele sente que o mundo todo pesa em seu ombro. Não há como escapar. Se esboçar a mínima insatisfação ou o desejo de recusa, sabe que apanhará sem piedade. Após algumas fraturas pelo corpo, aprendeu da pior maneira que a submissão, muitas vezes, é suportável e menos danosa.

O negócio é ir logo e voltar a passar cera no assoalho, porque a casa tem que estar sempre limpa para a chegada dos caminhoneiros, que vêm uivar sobre sua mãe todas as noites. Entre os berros das surras de fios elétricos e os de sua mãe sobre a cama, prefere o silêncio da caminhada até o bar. Pensou em fugir, mas o que fazer no mundo quando se tem apenas dez anos de idade? Para onde escapar?

Faz algum tempo, fica atento aos noticiários. Na televisão, fica vidrado com a notícia constante de milhares e milhares de pessoas que desapareceram. Sem mais e sem menos somem e nunca mais são encontradas. E se acontecesse com ele? Para quais lugares iriam essas pessoas?, cogitou ele. No jornal impresso, as notícias são mais detalhadas e sempre se ouve alguém dizer ter visto aqui ou ali uma sombra do desaparecido. Olhou novamente para sua mãe e pensou como uma criatura pode ser tão asquerosa e intragável. Que diabos todos aqueles homens veem naquela feição triste. Vai ver que é da tristeza dela que eles se alimentam.

Na escola, sempre que perguntam sobre a sua casa, a sua família e pedem para que defina a coisa mais bonita no convívio familiar, ele diz com um sorriso nu que a maior beleza de sua vida é a tristeza de sua mãe. Já desejou a morte dela inúmeras vezes, mas quando pensa no velório, prefere ficar com a tristeza dançante da fumaça de cigarros que ela espraia pela casa sentada no sofá azul carcomido pela sujeira.

Olha pela janela da cozinha. Um penhasco enorme, mato e pedras lá embaixo. Seria, também, um modo de desaparecer, não? Dirige-se a ela com a firmeza que os seus dez anos permitem. Pega o dinheiro e sai para o bar. Ao entrar, todos emudecem, pois a conversa girava, ao que pôde perceber, em torno de uma aposta para se descobrir quem afinal era o seu pai. Melhor assim. A velha morre e eu me liberto. Enquanto isso, segue fumando as xepas atiradas pela janela da sala; após mais uma noite entre os berros de sua mãe e o gozo de caminhoneiros, vê a tristeza elevada à condição de prazer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: