Crônica da Semana, por Marco Vasques

NATUREZA VIVA 

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [19/08/2013]

 

Conduz a carroça cheia de papel. Não. Não é um cavalo. É um homem. Descalço. Unhas negras. Um imenso bigode que esconde a ausência dos dentes. Uma garrafa de pinga numa sacola. Feridas se espalham pelo corpo. O cabelo é mais duro que o das velhinhas que frequentam o Lindacap nos finais de semana. E olha que nem o vento sul é capaz de mover os cabelos das senhorinhas que se enfeitam mais que árvore de natal para almoçar nos sábados gloriosos, desfilando com suas joias e roupas de grifes. Ele não, ele tem o cabelo negro fixados pelas noites sujas de sono e pela intempérie da vida e da rua. Carrega um olhar atravessado pela melancolia, porém fixo e firme. O castanho, com a luz do sol, ganha tinturas de mel. Os pés, soberbos, desbravam caminhos; não há chão indelicado que não suporte. Enfim, um homem altivo na paisagem fria do homem.

A imagem, infelizmente, se tornou tão corriqueira que um homem, um cavalo, uma barata, um rato ou um cachorro que puxe uma carroça de papelão atrás de um pedaço de vida dentro da vida em nada ou em quase nada se diferenciam. A dureza das cidades nada mais é do que a dureza do homem. Os dejetos se acumulam. O que é sobra passa a ser o mundo de outros mundos. Meio atrapalhado, ele disputa ora a calçada, ora a rua. Sem mistura, notável, entre automóveis e gentes. Tão gente, tão físico e tão incolor, tão invisível na tarde fria. Ele segue na busca do pão necessário.

 Sobre a carroça, em meio às sobras das gentes privilegiadas, uma menina espia o mundo do alto de seu império. Rainha das rainhas, ela carrega um sorriso mais terno que alegria de mãe. Ao lado dela, um gato e um cachorro, em harmonia, dividem o carinho e o sorriso solar daquele anjo borrado dentro da poluição humana. A carroça balança ao subir na calçada e o corpo dela faz um movimento leve. Parecia estar em cima de um elefante calmo e domar com soberania os movimentos do pai. Ele, todo cuidadoso, a cada solavanco, olhava de esguelha e abria um sorriso enrugado para sua dama de honra. Ela olha, abre outro sorriso. E de sorrisos se completaram.

O mundo agora era outro. Nenhum poema expressará a cumplicidade entre aquela menina e seu pai. Nenhuma poesia será capaz de captar a ternura entre os dois corpos. Não há como entrar naquelas peles inefáveis que entraram na mais significativa das lutas, a luta afetiva. Algo de sublime aterrava todo a dureza do entorno. Um uivo de carinho, debruçado no silêncio, se fez presente nas faces acinzentadas daquelas vidas. Não, não era um cavalo escorraçado a chibatadas. Era um homem e sua pequena, crucificando a imperfeição e a impureza. 

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