Crônica da Semana, por Marco Vasques

RETRATO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [26/08/2013]

Chove. A cor cinza se espalha pela cidade, tornando os passos e a vida aparentemente lentos. As luzes acesas refletem nas poças, árvores e vidraças. Os velhinhos insistem em jogar dominó na Praça XV. Nem o vento, a chuva fina e o frio conseguem fazer com que eles se agasalhem em suas casas. O aconchego do jogo e dos amigos atenuam os dias. O trânsito em sinal vermelho. A cidade em exercício de malemolência. Abaixo das marquises, homens, mulheres e crianças dormem. Para eles o mundo é um retrato alheio, uma figura desconhecida, amarelecida no abandono dos cemitérios.

No Café Cultura, mais uma exposição de arte sem arte alguma. Afinal, arte para quê? O negócio é decorar as paredes com qualquer coisa, atrair a visita de dois ou três jornalistas, um e outro escrivinhador e toda a sorte daquela gente diferente que, de tão diferente que insiste em ser, acaba por se tornar mais igual que os iguais. Pronto. É o suficiente para pseudopoetas, intelectuais de três livros, estudantes de letras e professores solipsistas esbanjarem suas iras contra tudo e contra todos. Nem o Egito, nem a Grécia ou os homens que dormem sob a marquise perpassam suas ideias. Todo pensamento está longe da carne. A negação da negação é uma afirmação da negação, berra um esquizofrênico do Centro de Letras da UFSC, pensando em impressionar duas meninas desavisadas.

No restaurante ao lado, o Mirantes, duas moças tiram fotos em seus celulares e postam na rede. Não basta comer – e olha que comer já foi um ato tão privado quanto fazer sexo; além de comer, se faz necessário anunciar ao vivo o cardápio e detalhar o tamanho da solidão. Porque é preciso estar muito solitário para precisar pensar que os outros pensam o tempo todo no que fazemos ou pensamos. Na Catedral Metropolitana, os pombos se esquentam no campanário; nem o badalar do sino é capaz do provocar o desejo de voo. No meio das árvores da Praça XV, pisando os desenhos feitos por Hassis, uma mulher corre mostrando os seios. Ela grita: Eu sou a mãe das pedras, eu sou a mãe das pedras. Não, não tenho leite; aqui nos meus seios só tenho pedra. São dunas de pedras. Eu sou a mãe das pedras.

Ninguém parece ouvir seus berros. A água que escorre pela vidraça do ônibus, parado no semáforo, esconde o olhar espantado de uma senhorinha que traz as últimas flores do mundo estampadas em seu vestido. São vermelhas as rosas que banham seu corpo. Os bancos reluzem suas assepsias. Um homem, sem uma das pernas, pede uma e outra moeda. Um casal de índios mudos distribui panfletos. Dentro da Catedral Metropolitana, o murmurar de velhinhas ajoelhadas, que rezam para anjos pedófilos.

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