A canção dentro – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 28/08/2013

A canção dentro

Domingo. Janelas fechadas. O inverno chuvoso permeia os dias. Sozinho dentro de casa. Dentro da cabeça ressoa uma canção há muito não ouvida. Não consegue se lembrar do refrão ou de qualquer parte da letra, tem apenas um ritmo, uma espécie de toada. Concentra-se, olha os cds na busca por um esclarecimento. Tenta cantar. Nada acontece. Apenas a melodia acariciando sua cabeça. Apenas um resquício de som. Resolve usar a técnica do esquecer para de repente lembrar. Ouve outras canções, lê alguns poemas, toma um café, ri de algum vídeo estúpido na internet, liga a televisão, desliga. Abre as janelas, inicia uma faxina, volta a viajar na internet. Nada acontece. A técnica do esquecimento não funciona, a canção está lá, ressoando, pulsando, pedindo para ser liberta. Quando será que ouviu? Quando será que ouviu pela primeira vez? Por que essa canção ressurge agora como um fantasma, um pedaço de sombra e som dentro de sua cabeça, fazendo seu domingo monótono se tornar uma busca, um rastreamento atrás de uma canção. O pior que não pode nem pedir ajuda, chamar alguém, tentar repetir a melodia, aquele lalaiá que se faz quando não se conhece a letra. Nada, será um domingo de investigação. Será um domingo de busca por algo que não quer ser buscado, que quer apenas estar dentro da cabeça, envolvendo memórias e esquecimentos, devaneios e sonhos. Talvez tenha apenas sonhado uma canção e agora fique assim, tolo, perdido, fechado num domingo fechado em busca de uma canção. Tenta desistir, retorna à faxina, mas a casa é pequena demais para que se ocupe por mais tempo. Fome não tem. Liga novamente a televisão. Mais do mesmo. Resolve dormir. Talvez sonhe realmente com essa música, talvez saiba do que se trata. Não consegue. Pensa em sair. Duela com a preguiça e com a chuva, duas coisas que insistem para ele: “fique em casa, tente mais um pouco, logo você se lembrará, se libertará disso, logo tudo voltará ao normal, logo será segunda-feira.” Obedece à preguiça e à chuva. Fica em casa. Deita-se no sofá, fecha os olhos, o que era melodia torna-se uma frase: estrela de cinco pontas. Conseguiu, uma pista, um pedaço da canção. O resto do domingo foi pleno pois ele era um menino brasileiro que atravessava o imenso véu de brilhos e escuridões.

Rubens da Cunha

Rubens da Cunha

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