Crônica da Semana, por Marco Vasques

ENCONTROS

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [02/09/2013]

 Senta-se ao ponto do ônibus com certa ansiedade. Três dias longe de casa, três dias sem o silêncio do apartamento, o aconchego dos livros, a cumplicidade dos gatos que habitam sua vida. É preciso chegar à sua casa e esquecer a maratona de trabalho dos últimos dias. Será necessário, após a chegada, ir ao mercado, ver se os produtos da geladeira ainda serão usados, trocar a roupa de cama, mandar a televisão à assistência técnica, comprar outro computador em que possa garatujar uns poemas. Sim, ele é um poeta. Medíocre, diga-se. Manuel Bandeira teria dito que o mundo seria muito melhor se todos fossem poetas, ainda que fossem poetas medíocres. Frase controversa, no entanto, um mau poeta, como se sabe, pode até gaguejar na língua, mas seus versos ruins não matam ninguém, pelo menos fisicamente.

Dois ônibus passam e atrapalham sua vida mental. Entre a passagem de um ônibus e outro percebe, ao seu lado, um moça ofegante e de respiração pesada. Carrega nas mãos um livro. Esgueira-se de toda forma para ver que autor ela estaria lendo. Logo imaginou que fosse o Leminski, que está mais popular que o Edney Silvestre. Para sua alegria percebeu que o livro combinava com a introspecção presente ao seu lado. Ela estava lendo Clarice Lispector. Pensou em falar com a moça. O que estaria por trás daquela pele sofrida, daquele olhar torto e de sua respiração triste?

Quanto mais pensa menos coragem tem. Os homens de ações, dizem alguns, são homens que fazem grandes feitos por impulso. Sempre sem saber que estão fazendo algo de importante. Os homens de pensamentos longos se intimidam quando estão diante de grandes feitos. Sobretudo hoje, pois Anita, por exemplo, é cultuada sem nada fazer, ou, para ser justo, fazer de um nada um pouco de tudo e tudo vira pouco. Olha para sua mochila cheia de livros seus e pensa em oferecer um à moça. Mais uma vez a timidez habitual impediu o simples ato de ofertar algumas palavras a uma desconhecida. É preciso escolher as pessoas que queremos presentear com palavras. Tanto quanto lapidar as ofensas que desejamos proferir. Afinal, somos por um tempo carne e eternos no verbo.

Ela percebe seu olhar fixo e demostra ar de desconforto. Começa a pensar numa coisa muito curiosa. Como as pessoas se encontram? Sabia que essa pergunta era a tara do ator e diretor de teatro Victor Garcia. Ele tinha uma mania de perguntar às pessoas, nos momentos mais estranhos possíveis, como elas haviam se encontrado? Em meio a toda esta maquinaria de ideias, chega ao ouvido da moça e agradece o encontro e o silêncio, e diz que lamenta a impossibilidade do reencontro.

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