O lirismo Libertação – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 04/09/2013

A metalinguagem talvez seja o principal assunto da poesia brasileira. Difícil encontrar um poeta que não tenha escrito algo sobre a poesia, o poema, ou o fazer poético. Carlos Drummond de Andrade tem alguns clássicos nesse sentido, como o genial “Procura da Poesia”, aquele do “chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: trouxeste a chave?” As palavras estão sempre fazendo esta pergunta aos poetas, exigindo deles uma resposta convincente, para que se possam se desprender da forma de dicionário, para que possam arvorar-se em poemas. No entanto, vem de Manuel Bandeira um dos poemas metalinguísticos mais essenciais, sobretudo aos poetas que estão em início de viagem, ou que ainda tratam a poesia com ingenuidades românticas: “Vou lançar a teoria do poeta sórdido. Poeta sórdido: aquele em cuja poesia há a marca suja da vida. Vai um sujeito. Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama: é a vida. O poema deve ser como a nódoa no brim: fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero. Sei que a poesia é também orvalho. Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgem cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade”. Num tempo em que muitas vezes temos que defender o óbvio, se faz cada vez mais necessário que os poetas tornem seus poemas nódoas de lama, manchando o brim dos leitores satisfeitos de si. A poesia sempre esteve na linha de frente das transgressões, das alterações na ordem estabelecida, das mudanças. Faz parte da força da poesia justamente o seu poder de minar as certezas, de derruir os preconceitos disfarçados em verdades, de ferir os totalitarismos da política, da religião, da economia. Cabe, ainda, aos poetas ficarem, igual a Manuel Bandeira, fartos “do lirismo comedido, do lirismo bem comportado, do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor.” É preciso, hoje mais do que nunca, gritar: “não quero mais saber do lirismo que não é libertação”

Rubens da Cunha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: