Crônica da Semana, por Marco Vasques

O PRINCÍPIO DA ESCURIDÃO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [09/09/2013]

Foi com a morte do seu avô que conheceu o princípio da escuridão. Morava a poucos metros da casa branca, com janelas laranjadas, onde seu avô havia construído seu império de 12 filhos. Mal anoitece e o pequeno cruzava o trilho, e adentrava a pequena chácara para dormir ao lado dele. Embora com apenas sete anos de idade, era o único a suportar o fedor de cachaça e a fala nervosa, porém suave, daquele vivente solitário e enrugado que mastigava seu fumo para combater a amargura.

O homem forte, viril, pescador respeitado e pai temido havia se transformado numa imagem débil que perambulava por debaixo dos pés de laranjeiras a beber e fumar em confronto direto com a sua desesperança. Estava velho. Os filhos debandaram para a cidade à procura de outro ofício. Os dois ou três que ficaram pelo sítio nutriam um rancor velado e não suportavam encarar aqueles olhos azuis por mais de alguns segundos.

O menino não. O menino tinha uma espécie de identificação absoluta com aquele traste que chorava escondido entre a plantação das bananeiras. Afinal de contas, já pequeno, era identificado como o estranho da família e acumulava olhares de desconfiança. No entanto, gostava tanto de seu avô que chegaram a dividir um copo de cachaça num dia de Natal. Foi o maior rebuliço. Toda a família condenando o pobre homem, que já não tinha mais forças para explicações. A verdade é que o menino pegou o copo de sua mão e tomou o líquido lentamente, num gesto de comunhão.

Chegou da escola e a sua mãe não estava. Estranhou o fato. Almoçou. Pela janela, as nuvens se dirigiam ao mar. Vai chover. A casa em que mora, uma pequena casa de madeira, se revelava bastante frágil durante as tempestades de outono. Em pouco tempo a escuridão se estabeleceu. A notícia da morte de seu avô circula rápida. Numa carroça, Manoel Egídio bradava o desaparecimento de mais um pescador da pequena aldeia. Um dos últimos de sua geração.

Sua mãe não chora. Diz que precisa banhar o corpo do velho, porque sua mãe se negava a sujar as mãos na imundície daquele velho imundo. Antes de partir, ela o tranca na pequena casa de madeira. Lá ficaria até o velório acabar e seu avô ser enterrado. Debateu-se durante toda a noite. Só o jasmineiro parecia ouvir seu tormento, porque seu odor funesto tomara proporções inigualáveis. Fechava o olho na escuridão e tentava desenhar o rosto de seu avô na imaginação. Tenta até adormecer no sofá da sala. Amanhece sem o sorriso de seu velho querido. Ouviu dizer que a morte foi causada pelo alcoolismo e pelo tabagismo. Não. Cedo entendeu o princípio da escuridão.

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