Era Infância … Cronica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 11/09/2013

Era infância…

Era infância. Era dentro de um lugar qualquer, longe da urbanidade, um lugar entre os milhares que ficam à margem da BR 101, esta rodovia que liga os dois Rios Grandes. Não tem na memória dois rios, apenas um rio: o Piraí, por isso o lembrar-se das pescarias. Saber qual peixe estava beliscando a isca apenas pelo movimento da boia sobre a água. Apostar no tamanho e enganar-se: a cará era maior do que se pensava, era testuda. O bagre era pequeno, quase um mandim com o mesmo esporão nocivo. Havia também o risco de ter a linha cortada pelas traíras e as raras saricangas.
Era infância. Talvez trazer à tona a morte dos porcos, dos bois e das galinhas não seja tão agradável. Era alimento, sobrevivência, mas havia sempre o olho animal diante da morte, havia sempre um desespero ao ver o porco aberto e o pai repetindo: quer ver um corpo abra um porco. As vísceras, a banha, o toucinho, o sangue das morcilhas. Mas havia também os bichos vivos: os cavalos, os cães, os gatos ariscos. Havia as vacas e as personalidades das vacas na hora de lhes tirar o leite.
Era Infância. O caminho solitário até a escola isolada, multiseriada: modelo extinto pelas novas políticas públicas. Todo dia o mesmo pé de coqueiro, nascido a dezenas de anos. Os mesmos pés de laranja, pitanga e ameixa. No alto do morro, o antigo pé de jabuticava, alegrando a gurizada. Neste caminho, apreendeu as primeiras palavras proibidas, soube de coisas que a mãe não contava. Tudo vindo dos mais velhos, daqueles que já tinham percorrido o caminhos mais vezes e mais tempo.
Era infância. Os ninhos de passarinho nos galhos mais altos: aventura e desafio. Os azuis ovos dos anus. Os ninhos descuidados dos quero-queros, o arquitetado ninho dos beija-flor. Os valos, as cobras d´águas, os sapos. As cobras cegas cortadas pelo arado. As minhocas sob o talo das bananeiras. Os marimbonos nas folhas secas das bananeiras.
Era infância: agora são sonhos ou memórias trespassadas pelo esquecimento e pela invenção. Agora, na adulteza de homem sério, a infância é um delírio textual, uma reminiscência perdida em algum lugar, às margens da BR 101, em algum lugar entre o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul.

Rubens da Cunha

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