Crônica da Semana, por Marco Vasques

O DESEJO DE SÔNIA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [16/09/2013]

 

            Sônia está internada. Tem um sorriso marcado pela tristeza, porém inocente. Ela está hospitalizada para se recuperar de uma pneumonia. Sônia não consegue mais movimentar os braços. Ela confessou à paciente da cama à sua direita que a atrofia nos braços se deu por não conseguir comprar um remédio. Necessitava tomar os compridos no prazo de trinta dias; no entanto, demorou mais de dois anos para juntar dinheiro o suficiente para a compra. Os braços paralisados de Sônia perdem para o seu sorriso. Ela ri como os anjos. Sônia é um anjo, porque se anjos existem, eles são imitações do sorriso de Sônia.

            Sônia sussurra palavras inaudíveis. Não está cantando. Está reclamando a ausência dos seus. Faz mais de três dias que nenhum parente ou amigo aparece para saber de sua saúde, de suas dores, de seus desejos. Ninguém para trazer um lanche, uma água de coco. Olha para a paciente à sua esquerda. Dona Rosa parece ter incorporado a morte. Dorme como se nunca tivesse vivido. Ao seu lado os sobrinhos e os netos brigam; ninguém quer ficar com ela nas noites inóspitas do hospital. Sônia vê e pensa que pelo menos seus parentes não disfarçam, não fazem teatrinho com a sua doença. Eles não se importam com ela e ponto final.

            Mas Sônia se importa com eles. O prolongado horário de visitas é um calvário para ela. A cada pessoa que entra no quarto, desvia a cabeça para ver se reconhece as feições. Não. A irmã de Sônia anda ocupada demais com os correligionários de sua igreja. O amante de Sônia precisa trabalhar o dia todo e cuidar dos oito gatos e mais de quinze cães que aguardam a sua chegada. Ela mesma confessa que passou a colecionar animais para tentar alguma comunicação com o mundo. Ao falar deles, os olhos de Sônia marejam. Sabe o nome, a cor e o tom de voz de cada um. Sônia anda indignada, pois os vizinhos a denunciaram e as autoridades querem arrancar seus viventes. Ela esbraveja e diz não saber o que será dela sem seus gatos e seus cachorros pulguentos.

            Mais um dia. Sete horas de visita e nenhum rosto conhecido. Sônia, que tem caráter duro por necessidade, passa a se comunicar com os visitantes dos outros pacientes. Reclama que faz mais de cinco dias que só pensa em comer empadas. Sônia nunca foi de escolher comida, mas tem uma predileção incrível por empadas. Amanda, a paciente da sua direita, afaga com sua doçura os reclames de Sônia. Provoca as delicadezas de Sônia. A cada diálogo ela relembra o quanto é bom comer empadas. Sônia não sabe que no dia seguinte será presenteada. Toda a humanidade estava presente naquele pequeno desejo de comer empadas.

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