Ser e Ter – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 18/09/2013

Ser e ter são palavras muito comuns. Servem de base para discursos psicológicos, religiosos, de autoajuda. Há, claro, uma distinção entre ser e ter nesses discursos: o primeiro é colocado como o ideal, o herói, enquanto o segundo é tido como o vilão, aquele que faz mal à humanidade. Isso no mundo ideal dos discursos prontos, porque na vida real, ser e ter não são assim tão puros. Talvez isso se dê porque estamos vivendo sob o jugo do sistema capitalista, em que “ser” não gera dinheiro, não produz consumo, não faz a roda-viva do lucro girar. Dentro das premissas desse sistema, o “ter” é o herói, é aquilo que movimenta, que enriquece, que agrega valor. Somos mantidos diariamente sob publicidades constantes, modismos e a ideia de que precisamos trabalhar para possuir, ganhar dinheiro para comprar e uma série de outras leis invisíveis que já nem questionamos mais. Temos necessidades de consumo, de possuir o último modelo, a tecnologia mais atual, a grife, a marca. Somos todos marcados e grifados como indivíduos vorazes, esfomeados e o alimento é a mercadoria. Estamos todos sob o jugo do fetiche da mercadoria, como pensava o filósofo alemão Walter Benjamim, vivendo uma ilusão de liberdade de consumo, em que tudo parece correr a contento para nós: trabalhamos, consumimos, trabalhamos mais, consumimos mais, no entanto, funciona mesmo é para meia dúzia dos detentores do poder. O resto é somente massa de manobra, hipnotizada pela ideia de que ser é ter, ou ter é ser.  Assim, nesse cenário, não há muito lugar para o ser que a gente vê nos discursos mais saudosistas: um ser desapegado, transcendente, afeito a coisas menos materiais. O fato é que a sociedade humana, dentro do sistema econômico vigente, não tem muita saída: ou mantém o sistema consumindo e consumindo-se ininterruptamente, ou elabora uma outra perspectiva, outro caminho em que o ser não seja aquele idealizado dos discursos de autoajuda, mas seja algo mais próximo da solidariedade, da convivência mais amena entre as pessoas. Porém, para que isso aconteça, é preciso uma revolução, uma alteração radical da ordem vigente tida como natural. Missão para o próximo século.

Rubens da Cunha

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