Crônica da Semana, por Marco Vasques

A MORTE DE MANUEL EGÍDIO 

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [23/09/2013]

 

Na pequena Guaiúba, quarenta anos após a morte de Manuel Egídio, não se chega a uma conclusão acerca do seu desaparecimento. São tantos os relatos que já não se consegue identificar o que é ficção e o que é realidade. Uma das versões é muito intrigante. Contam os moradores do lugarejo que Manuel Egídio era casado com Luiza. Amava imensamente sua esposa. Era um tipo bruto. Agricultor. Mãos duras, calejadas e palavras firmes. Não abria sorriso para ninguém. Andava sempre carrancudo. Os filhos não conheceram afeto, motivo que levou sua filha única, Maria Salete, a sumir no mundo. Desapareceu por alguns anos. Um dia mandou uma correspondência dizendo que residia na cidade de São Paulo, estava casada e tinha três filhos.

Após o sumiço, Manuel Egídio nunca mais pronunciou o nome da filha.  Proibiu toda e qualquer referência a ela. O amor por sua mulher era tanto, segundo relatos, que permitia à Luiza que remexesse nas fotos e lembranças da fugitiva. Luiza mantinha um retrato de Maria Salete na sala, escondido atrás de umas louças da cristaleira. Não passava um dia sem retirar as xícaras de porcelana do lugar e mirar a filha com a habitual ternura materna. Manuel Egídio sabia da rotina, mas disfarçava. Aquilo foi comovendo e amolecendo suas ideias. Chegou a pensar em fazer uma viagem, dar uma boa surra em Maria Salete e devolvê-la à mãe. Mesmo imerso numa bruteza incomum, sabia que aquela ausência tirava um pouco da alegria de sua amada. 

Manuel Egídio fabricou mil maneiras de buscar a filha. Nunca saiu da circunferência de suas plantações e logo tirou a ideia da cabeça. No entanto, chamou o único filho alfabetizado e solicitou que copiasse o endereço de sua irmã. Sua mãe iria visitá-la, disse ele. O rapaz foi a Imbituba, comprou     passagem para São Paulo. Na semana seguinte, Luiza viajou. Ficaria um mês com sua filha. Manuel Egídio, ao ver sua amada partir, intuiu que o seu mundo se modificaria, que sua vida não seria mais a mesma. Um sentimento de estranheza o mortificava e pesava seu coração.

            Luiza reencontrou Maria Salete. Conheceu um mundo jamais imaginado. Avenidas, carros, teatros. Ampliou seus olhares, mas o amor por Manuel Egídio, em momento algum, sofreu abalo. Ao voltar a sua terra, Luiza estava cheia de graça. Batom, laquê, rímel e sobrancelhas novas. Vestido decotado, esmalte nas unhas. Ao ver sua mulher, Manuel Egídio enlouqueceu. Saiu correndo chácara adentro. Dizem que foi encontrado, trinta dias depois, enforcado numa árvore de cinquenta metros de altura. Morreu acreditando que Luiza se tornara mulher da vida.

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