O engarrafado na vida – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia, em 25/09/2013

A cada dia mantém-se preso às convicções, às certezas de que sua vida fora do casamento, do trabalho, da rotina que construiu nada seria. Então, por que essa sensação de aprisionado? Por que esse embate diário? Há, como um fantasma, uma voz dizendo larga tudo, muda, arrisca, ainda dá tempo, ainda é possível partir, sumir, desaparecer. Mas, ao mesmo tempo, a mesma voz se metamorfoseia e lhe repreende: as responsabilidades, os filhos, o patrimônio, ninguém é uma ilha, ele tem vínculos, obrigações, que o tempo das escolhas acabou. E assim, enquanto mais uma vez engarrafa-se no trânsito, mais uma vez recebe ordens espúrias de um chefe com cara de adolescente, enquanto executa os cálculos, os relatórios, as voz dúbia duela dentro da sua cabeça. Atravessa mais um dia, uma semana, um mês, mais um ano é atravessado pois já percebe as luzes de natal: já é quase o nascimento anual de um símbolo religioso transformado em consumo. Ele precisa é mesmo de um renascimento, uma páscoa antecipada, um ressuscitar longe de tudo isso. Mais uma vez chega em casa, mais uma vez afaga sem carinho os filhos pequenos. Não perturba a esposa, pois essa parece também estar com ganas de fugir, talvez até esteja fugindo, até esteja conseguindo abrir algum valo, algum túnel nessa prisão cotidiana. As voz volta, grita dentro dele: “olha o que você conquistou, construiu e mantém: isso é felicidade, contente-se!”, a mesma voz grita uma pergunta: “olha o que você conquistou, construiu e mantém: isso é felicidade? Descontente-se”. Assiste um pouco de televisão: novela, depois o futebol. Depois o sexo burocrático com a mulher, depois o tentar dormir, essa pequena morte diária que nos socorre. O que dizer a si mesmo amanhã, quando acordar e perceber que a vida permanece no mesmo fluxo. Tem 42 anos, tem uma certa vergonha ética por estar em crise, por isso mantém-se fechado, interno, e nos lábios o sorriso de homem feliz e realizado. Por fora, a sua voz conservadora vence, por dentro a sua voz transgressora vence. Ele é um empate, um zero a zero contumaz. Torce, diariamente, para que alguma instabilidade externa desempate: um caso amoroso da mulher, um desemprego, um terremoto. Até que isso aconteça segue, mais uma vez, engarrafado na vida.

Rubens da Cunha

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