Crônica da Semana, por Marco Vasques

 

 ÚLTIMA DANÇA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [30/09/2013]

Faz algum tempo que Elizabete não dança no baile de fim de ano. Após o casamento e o nascimento dos filhos, não achou mais tempo para cuidar das coisas de que realmente gostava. Dançar era a principal delas. Antônio, mesmo com seu caráter rude, nunca ordenou que ela parasse. Mas a contradição entre a felicidade exuberante de Elizabete e a tristeza bruta de Antônio se fazia presente a cada novo final de ano. Os homens do lugarejo, por tradição, faziam uma rifa que premiaria dez felizardos que desfrutariam a honra de dançar com Elizabete.

Um mês antes, o bairro entrava em alvoroço incomum. Namoradas brigando com seus homens, que disputavam os bilhetes da rifas como se estivessem comprando um bilhete de loteria premiado. A grande maioria das senhoras murmurava pelos cantos. Elas xingavam Elizabete em pequenas rodas. Antônio, que tudo ouvia, ficava enfurecido de ver o nome de sua mulher sendo apedrejado em todos os lugares. Nos bares, alguns homens se atreviam a tecer um e outro comentário picante. Na pescaria, o assunto não era outro. Elizabete era o grande acontecimento da festa de final de ano.

Todo o burburinho, sempre à boca pequena, foi deixando Antônio incomodado. Ele sabia que sua Elizabete dançava por pura paixão e que ela não tinha o objetivo de seduzir os homens, e muito menos o de afrontar as mulheres. Dançar era o seu jeito de respirar. Há vinte anos Antônio quis mudar de cidade. Disse que estava cansado, que a vida ali já havia dado o que tinha que dar. A mulher argumentou que não queria ir embora. E a festa? E a dança de final de ano? Tradição da família? Disse que sua avó dançou até completar oitenta e nove anos e não seria ela a primeira mulher a quebrar a tradição.

Antônio perdeu sua altivez. Sempre se rendeu aos pedidos de Elizabete.  As rugas tomaram conta de seu rosto. Ano a ano a rotina se repetia. Sua vida devassava. Um dia entrou no bar e sentou num canto sozinho. Quieto, bebeu quase uma garrafa de cachaça. Havia prometido que mataria o primeiro que ousasse falar uma palavra sequer que ferisse a honra de sua amada. Não deu outra. O bar se avolumou e os comentários surgiram. Antônio se levantou. Viu que nada adiantaria e desistiu de seu intento inicial. Caminhou em direção às dunas. Por um instante passou pela sua cabeça a hipótese de matar Elizabete, mas logo percebeu que não seria capaz. Andou mais de dois quilômetros até chegar ao mar. Lá sacou o revólver. Antes de desferir alguns tiros no escuro, sentou e chorou. Queria que nada daquilo o afetasse. Foi a tristeza de Antônio que enrijeceu o corpo de Elizabete que ainda sonha com uma última dança.

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