A manada – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 02/10/2013

A manada

Quase não tem o que dizer. Fica remoendo as velhas verdades de sempre. Pouco estabelece novos vínculos, preso que é às ingratidões, aos remorsos, aos devaneios do seria bom se fosse diferente. Sabe que faz parte da massa, da manada, que pasta onde lhe mandam. Talvez se diferencie justamente por isso: sabe que é um animal obediente, sabe das cercas elétricas que a vida coloca naqueles 5 m² a que tem direito. Certa vez ouviu uma canção que dizia: “vaca profana põe teus cornos pra fora e acima da manada”. A voz aguda da cantora ainda retumba em sua cabeça, a mesma cabeça que ele nunca levantou pra fora e acima da manada. Por que será? Por que esse andar junto, esse gregarismo que elimina diferenças, estabelece uma falsa unidade de ação, de pensamento, de opções. Noutra vez, viu um documentário sobre três mendigos no norte de Minas. Três almas desgarradas envoltas em loucura, abnegação, alcoolismo. Encantou-se com aqueles homens, mas nada fez, não movimentou seus cornos, continuou pastando em seus metros quadrados de felicidade, de amor, de esperança. Claro, está sendo irônico consigo mesmo, pois é o que lhe resta. Olha ao redor, os outros estão tão envoltos na busca da tal felicidade, do amor, de algum sentido que vá além da finitude, que pouco sabem o quanto ruminam as mesmas misérias de sempre. Estão todos tão apegados ao consumo, à religião, ao pão e circo diário que nada além disso pensam. E ele? Ele que vê seus iguais e que se sabe um igual, o que ele pensa de diferente? Transita, meio sonolento, por uma consciência, pelas observações de sempre, pela arte transgressora de sempre, mas nada que se efetive mudança, nada que se efetive em algo que vá além do prazer ligeiro. Tem o sexo, tem a bebida, tem alguma droga de vez em quando, tem amigos, tem livros, tem algumas certezas que lhe dão a sensação de que ele é a vaca profana que levantou os cornos. Mas tudo é tão fugaz que melhor seria se não tivesse nada disso, se fosse como os outros que compram, que oram, que fornicam e se consideram livres. Enquanto isso não acontece, outra canção lhe consola porque lhe traduz: mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco.

Rubens da Cunha

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