Crônica da Semana, por Marco Vasques

ARTHUR E A CIDADE

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [07/10/2013]

Não tem jeito. Arthur não consegue se identificar com a vida na cidade. Ele tem horror a prédios, asfaltos, aços, ferros, placas de advertência e toda a ditadura da tecnologia que o mundo exige. Possui verdadeira vertigem e medo da velocidade e da cegueira que a vida urbana causa. Quanto mais a cidade cresce, menos ele consegue enxergar. E não se trata de mera melancolia. Arthur teve uma infância no sítio. Roubava uvas das parreiras de suas tias. Soltava os bois bravos de seu avô, quando a turma do futebol invadia o pasto selvagem. Banhava-se em minúsculos lagos, que julgava imensos oceanos. Pescava com a família; colhia milho, cana, melancia, laranja, banana. Num resumo simples, teve um infância em que o mirar o horizonte era prolongar sonhos. Ação e fantasia não faltaram.

Acontece que, aos onze anos de idade, a mãe de Arthur, após um briga imensa com a família, resolveu mudar os ares. A guerra familiar criou silêncios e dores. O silêncio foi tanto que Lídia não teve o que fazer. Pegou seus quatro filhos, os dois cachorros, todos os móveis e os jogou sobre uma carroceria de um caminhão. Rumaram para a cidade grande. Lídia, é preciso dizer, é uma mulher que nasceu tatuada pelo abandono e não conheceu a ternura paterna; todos os homens com quem viveu só faziam com que as rugas aumentassem e os seios caíssem. Nunca teve amigos e passou a vida decorando seus próprios segredos.

Chegaram à cidade cheios de abandono. Lídia alugou uma casa de vinte metros quadrados, de madeira. Logo se viu em apuros, pois não possuía nenhum amparo, estava sem emprego e tinha quase uma dúzia de crianças para sustentar. Os três primeiros meses foram amenos, porque Lídia tinha algum dinheiro do pequeno terreno que vendera. Vendeu por uma quantia inferior ao valor, para poder fugir e decretar morte ao núcleo familiar opressor. Arthur, o mais velho dos irmãos, logo foi solicitado ao trabalho.

Nos primeiros seis meses, com apenas onze anos, Arthur foi servente de pedreiro, vendeu relógios, picolé, tapetes e broches. Quanto mais trabalhava, menos dinheiro via. Lídia reservou um quartinho, da já minúscula casa, e começou a se encontrar com alguns homens famintos por sexo. Arthur nunca suportou ver sua mãe, todas as noites, enroscada com os estranhos. Impulsionado pela repulsa, Arthur pega sua mochila e espia, pela última vez, o corpo nu de sua mãe. Um homem, também nu, dorme ao seu lado. Desce a escada de madeira e some na escuridão, sem olhar, uma vez sequer, para trás. Lídia nunca soube o que aconteceu com seu filho. Procurou em tudo o que pôde, mas Arthur nunca foi encontrado.

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