As fechaduras – Crônicas de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 09/10/2013

O que é uma fechadura? O que é isso que colocam nas portas, nas gavetas, nos armários? Um objeto que está ali para trancar e abrir, esconder e revelar, dizer o que está do outro lado mas também não permitir que ninguém saiba o que existe lá.  A fechadura acompanha a história do homem desde sempre. Nos antigamente era mais simples, era feita de madeira e tinha um nome estranho: taramela. Muita gente chamava de tramela, que é como eu prefiro pois lembra a minha avó falando, minha vó também falava acardita no lugar de acredita, (mas isso é outra história). A tramela era a fechadura daqueles que não tinham muito dinheiro para comprar fechaduras de ferro, de aço. Ela tinha vantagens e desvantagens. A vantagem é que não precisava de chave, ou seja, nunca se corria o risco de ficar do lado de fora da casa, na verdade, a tramela servia mais para deixar fechado do que trancado. A desvantagem era mais para as crianças que não alcançavam as tramelas e então não podiam entrar nos lugares fechados. Claro, bastava um pouco de imaginação e um cabo de vassoura que a tramela era facilmente aberta, (mas isso é outra história).  Numa porta, bastavam duas tramelas de madeira: uma por fora e uma por dentro. Pronto, tudo se fachava e abria com simplicidade. Era um tempo mais livre em que simples tramelas de madeira davam conta do serviço das fechaduras. Outra desvantagem da tramela é que ela não tinha buraco. Nada mais legal que um buraco de fechadura: é como um binóculo, um túnel bem pequeno. A única parte do corpo que pode atravessar o buraco da fechadura é a visão. O buraco revelava o proibido, aquilo que não pode ser dito, não pode ser visto, mas que escapava justamente por ali. Bastava, portanto, esperar e ter um pouco de sorte que tudo de bom ou de ruim poderia se revelar por aquele pequeno espaço, (mas isso é outra história). Só que até o buraco da fechadura é coisa dos antigamente. Agora as fechaduras são quase todas cegas, não revelam mais nada aos olhos curiosos. Fecham, trancam, dificultam o acesso, perderam aquela coisa meio criança meio engraçada que tinham. É, hoje a fechaduras cresceram, perderam a graça. nem pra contar outra história servem.

Rubens da Cunha

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