Crônica da Semana, por Marco Vasques

O CARTERAÇO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [14/10/2013]

Em Bundópolis, existe um mecanismo de defesa ― e de ataque também ― muito estranho. Predomina o popular carteraço. Funciona na política, na academia, no trânsito, na família, no jornalismo, no trabalho, nas redes sociais e na arte. Lá, até intelectual usa desse dispositivo. Ele é usado das mais diversas maneiras. Gianni Rodari, ao falar sobre o discurso da autoridade, no livro Gramática da Fantasia, já alerta que “é preciso estar atento a um aspecto do ‘riso de superioridade’. Se o perdermos de vista, ele pode assumir uma função conservadora, aliar-se ao conformismo mais enjoado e enviesado”.

No entanto, é importante não confundir o indivíduo que tem opiniões firmes, que anda na contramão, e que exerce o direito da discordância, com a prática do carteraço. Antes de tudo, para que tal jeito de opressão seja eliminado, se faz necessário garantir o direito de expressão irrestrito. Por mais difícil e doloroso que seja, a liberdade é a condição primeira para acabarmos com os discursos autoritários mascarados de democráticos. Nas discussões têm que prevalecer o argumento, a análise e o embate franco, claro. Tem que imperar a coragem do enfrentamento.

É preciso dizer, ainda, que algumas pessoas sabem mais que outras. Sabem porque estudaram, porque tiveram mais oportunidades, porque foram incentivadas, porque nasceram ricas; enfim, algumas pessoas se prepararam melhor que outras para discutir determinados assuntos. Claro que este “saber mais” é fatiado, específico e vale para um assunto, uma área; não é extensivo ao todo, porque temos inúmeras camadas de saberes. Não podemos, obviamente, deixar de reconhecer que algumas pessoas sabem mais que outras em determinados assuntos e, por isso, reza a cartilha, é prudente ouvi-las, ainda que discordemos.

Uma vez explicada uma coisa e outra, voltemos ao ponto original da discussão. O carteraço é usado, na maioria das vezes, por pessoas que têm algum poder sobre um grupo. Não é incomum ver professores humilhando seus alunos; chefes, seus funcionários; políticos, seus eleitores. Em Bundópolis, o riso de opressão afeta todas as camadas. Nem produtor cultural escapa, pois pensa estar no Olimpo da sapiência. Vale retornar o pensamento do italiano Rodari: “para que o riso tenha função positiva, é preciso que sua flecha golpeie as ideias velhas, o medo de mudar, a beatice das normas”. Ele está falando da ironia de opressão, muito praticada com objetivo de manter as arcaicas formas de fascismo e solidificar as “ideias velhas”. No entanto, não esqueçamos, o silêncio de opressão também é muito praticado pelos bundopolitanos.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: