Rasga Coração: um conflito eterno – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 16/10/2013

Rasga Coração: um conflito eterno

Uma das peças mais emblemáticas do teatro brasileiro é Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho. Escrita em 1972, um pouco antes da morte do autor, que nunca viu sua peça nos palcos, pois ela foi totalmente censurada pela ditadura militar. Rasga Coração só foi encenada em 1979, se tornando um símbolo da abertura política que se desenhava então. A peça trata do velho conflito de gerações. Um pai, apelidado de Manguari Pistolão, militante político clássico, afeito às reuniões, à organização e conscientização dos trabalhadores, entra em conflito com seu filho adolescente que, por sua vez, está muito mais próximo de uma visão hippie de mundo. Para o filho a revolução tem que acontecer dentro de cada um, só assim a mudança real acontecerá. O filho também não entende como o pai se diz revolucionário e consegue levar uma vida de trabalho e obediência dentro de um sistema que ele combate diariamente. Parte da força criativa de Rasga Coração está em desenvolver o conflito de gerações em dois tempos: se o pai militante tem conflitos com seu filho, ele também já foi um adolescente e também já enfrentou o seu pai integralista, lá na década de 30. Assim, em muitos momentos, o pai Manguari Pistolão repete o discurso de seu pai, em muitas vezes o filho Manguari Pistolão repete o discurso de seu filho. Em essência, mais do que uma alegoria política sobre o conflito de gerações, Rasga Coração é, como se diria Yan Michalski, um conflito entre “o impulso das pessoas de se aproximarem uma das outras, independente dos choques de geração e ideologia e, por outro lado, a falta de coragem e desprendimento necessários para levar tal aproximação às últimas consequências.” A peça de Odulvaldo Vianna Filho esmiúça não apenas confrontos políticos, ou confrontos de autoridade, mas toda uma visão sobre a vida. Num jogo complexo entre passado e presente, Vianninha expõe de forma ampla aquilo que seria sintetizado, no mesmo período da criação da peça, pelos versos antológicos de Belchior: “Minha dor é perceber / Que apesar de termos / Feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais..”

Rubens da Cunha

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