Crônica da Semana, por Marco Vasques

HELENA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [28/10/2013]

A palidez e os olhos aprofundados não deixam dúvidas da fraqueza de Helena. Sentada numa cadeira de rodas, ela tenta virar a cabeça para acompanhar os outros pacientes que transitam, também debilitados, de um lado ao outro à procura de uma explicação possível para suas doenças inesperadas. Helena tem os braços finos e uma aversão imensa à luz. A menina de nove anos tenta de todas as formas se movimentar. Não consegue. A afasia impede a comunicação direta. Não pode se mover. Não pode expressar o que deseja em seu funeral. Helena sempre odiou flores, por isso comia todas que apareciam à sua frente.

Aos sete anos ganhou um vestido com flores vermelhas de sua avó. Foi ficar sozinha no quarto e cortou todas elas com a tesoura. Depois as jogou no lixo. Estendeu o vestido, agora perfeito, sobre a cama, e ali o deixou por dois dias até que seus olhos se encheram dos vazios. Helena não sabe muito do mundo, apenas sofre. Médicos e enfermeiros passam sem ao menos olhar para sua condição débil. Ela quer se comunicar. Os braços não conseguem forças para movimentar a cadeira de rodas. Sobrou à Helena percorrer o mundo com o olhar e se expressar pelo rosto, já que a fala e o corpo não respondem mais aos seus pensamentos.

Ela tem uma sensação muito estranha ao tentar falar, ao formular a frase inteira na mente e não conseguir os movimentos e a força necessários para expulsar os pensamentos represados. A mãe de Helena dorme ao seu lado. Sempre que acorda, fala com a filha, faz um afago, diz umas palavras de ternura e motivação; no entanto, Helena não se ilude. Ela sabe que vai morrer. E aquela amolação piedosa da mãe a deixa muito irritada. O pai sempre foi mais realista. Quando os primeiros sintomas da doença apareceram, aos seis anos, já disse à menina que ela tinha pouco tempo de vida e que isso não era tão ruim assim. O mundo nunca para, não importa o tamanho do morto. Faz três meses que ele não visita a filha. A mulher, em represália, foi para casa de sua mãe e disse que nunca mais voltaria, pois um pai que abandona a filha neste estado não é gente.

Helena certamente repreenderia a atitude piegas da mãe. E saberia que o pai a abandonou por não suportar tanta dor e tristeza. A garota não sabe, mas Elpídio, seu pai, se atirou do décimo quinto andar de um prédio com uma fotografia da família não mão. A mãe, Dória, se tornou uma alcoólatra e arrancou o útero uma semana após sua morte. E tudo que Helena desejava era um único momento de comunicação para dizer que não queria flores sobre seu corpo desperfumado de anjos, pois nasceu para abraçar as trevas.

 

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