Os vendavais dentro – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 30/10/2013

Tem vendavais dentro. É coisa de sempre, dos tempos de antes de nascer. Vendavais ou ventanias? Não importa a diferença, sabe apenas das borrascas nos dias em que o inverno lhe é mais intestino. Noutros dias, os ventos são mais decíduos, mais caídos: anjos talvez. Talvez o que lhe venta dentro são as asas de São Miguel Arcanjo, o general, o que derrotou Lúcifer nas visões apocalípticas de João, ou seria o Portador da Luz, o próprio dragão sempre derrotado mas que sempre retorna, sempre venta tentações. São seus ventos reflexos dessa guerra tão antiga? Não sabe, pois tem dias em que os ventos não ciclonam, apenas brisam. São dias de alguma paz tediosa, aquela sensação esparsa de que o corpo é uma praia limpa de desordem, um lugar bem domingo à tarde. De resto, é o invisível que destroça telhados, árvores, que arranha a pele, desabotoa as artérias e veias. Vive assim, como se estivesse na frente de um ventilador gigante, daqueles que o cinema usa para fazer ventos falsos. Não, não é uma boa imagem para os seus ventos. Afinal, os ventiladores podem ser desligados, os ventos falsos podem ter a velocidade diminuída e aumentada conforme a necessidade. Nele não é assim: os seus vendavais primam pela verdade, primam pela técnica de se enfurecerem como se fossem tornados nos pastos americanos, ou aqueles tufões que chegam à costa japonesa. Trata-se de força, presença, velocidade, trata-se de medo nos seus ossos náufragos, Trata-se da fúria invisível que se manifesta. É certo, já disse de seus dias de brisa, ou até mesmo os seus dias de vento sul, mas são tão raros, tão parcos que pouco podem fazer, pois o que o constitui são os vendavais, as ventanias, ou como gosta de dizer, as ventanças que carrega dentro. Tentou por muito tempo acalmar-se, tentou por mais dias de brisa em si, no entanto derrotou-se sempre, pois os pés-de-vento se firmam, afeiçoam-se cada vez mais a sua carne e sopram descaminhos, arrancam cercas, produzem maremotos, escandalizam os pássaros. Venta-se tanto que já desistiu de entender, ou tentar conter-se. Nos dias de hoje, quando o corpo envelheceu, ele apenas fecha os olhos, respira e deixa que os vendavais passem e sejam.

Rubens da Cunha

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