Uma Graça Poética – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada em 06/11/2013 no Jornal A Notícia

 

Eu a vi numa igreja. No altar, uma imagem de Nossa Senhora das Graças mais parecia um espelho para aquela mulher. Jovem, não mais que quarenta anos, entrou na igreja sorrindo. Mancava, um dos braços pouco se movia, vítima que foi de um acidente vascular cerebral. Esse acidente interno e invisível que acomete muitas pessoas, esse derrame das veias e artérias que nos paralisa, ora os braços, ora as pernas, em alguns a fala. Mas ela é jovem, o acidente foi grave por certo, mas não a derrubou, nem lhe fez usar muletas. No entanto, o acidente lhe deu um sorriso melancólico. Era tal a resignação amorosa naquele sorriso que todo o resto pareceu insignificante frente àquela mulher que entrou sozinha na igreja. Eu a acompanhei em silêncio. Minha alma mancava junto, arrastava-se também como sua acidentada perna direita. Depois, sentou-se à minha frente, ainda sozinha. Pensei em sua solidão, em como ela pairava, (levitante? Santa?) sobre as outras pessoas. Aos poucos, os seus foram chegando. Enganei-me a respeito de sua solidão. Ao lado o marido, mais por perto uma filha pequena serelepava sob o olhar terno da mãe. A acidentada mãe que me causava comoção. Durante todo o culto pouco ouvi os jargões do diácono, pouco ouvi os cantos religiosos das crianças da comunidade, só tinha olhos e ouvidos para a mulher que me comovia. Num determinado momento, a filha sossegou um pouco e foi abraçada pela mulher que lhe sorriu em tal plenitude, em tal força consternada que as lágrimas me vieram. Eu havia presenciado um raro instante de poesia corporificada entre uma filha e uma mãe que tinha um dos lados paralisados, que tinha um corpo danificado, mas todo um espírito que se movia denso, forte, crucial aos meus olhos de poeta frágil. Seria essa uma experiência religiosa? Uma dessas experiências místicas que acontecem aos santos, aos que conseguem entrar em sintonia com o mistério? Ao mesmo tempo, tudo era tão simples, tão ausente de aparências, protocolos, engodos, tudo era tão essencial e pleno e estava acontecendo ali, à minha frente. Eu fui, naquele momento, um homem que viu, em alguns segundos, o que precisaria ser visto por toda a gente, o tempo todo: uma graça poética.

Rubens da Cunha

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