Crônica da Semana, por Marco Vasques

OS BABACAS DO CÓRREGO GRANDE

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [11/11/2013]

Dona Lindomar lamenta informar, mas há muita gente besta neste mundo. A velhinha, que retornou ao seu bairro amado após uma viagem em comemoração aos seus 75 anos, não anda nada satisfeita com a horda de babacas que transitam pelo Córrego Grande. São muitos, diz ela. Mal chegou ao restaurante Dona Benta, já se deparou com uma manada de carros sobre a calçada, empurrando toda a espécie de gente para o asfalto. Não fosse Bernardinho impedir, ela entraria no estabelecimento para trocar o salmão da galera por um belo sermão.

Respirou fundo e atravessou a rua para não se incomodar, mas não teve jeito. Mais duzentos metros, estava à frente do restaurante Tradição. O cheiro da carne aguçou a saliva; no entanto, mais uma vez o apetite foi embora por conta de uma miríade de carros que jogaram a senhorinha, que tem passo lento e ossatura fraca, para a estrada. Atravessa a rua novamente. Mais trezentos metros, bem à frente do Colégio COC, a coisa se repete e os nervos já precários de Dona Lindomar dão sinal de juventude.

Pensou em ligar para a polícia. Lembrou que de nada adiantou a última vez que denunciou a Academia World Gym ― que não contente em deixar seus clientes colocar os carros na calçada, ainda a demarcou com linhas amarelas ―, e desistiu. Rememorou que, na época, indagou o policial e pediu que multasse os carros. No entanto, o soldado disse que não podia fazer isso; que se está demarcado, mesmo estando sobre a calçada, é porque tem autorização do IPUF; e mexer com estas empresas é complicação na certa. Então, o jeito foi caminhar. Passou pela oficina de bicicleta do Valdir, até chegar ao Bar do + Arroz e ao Minimercado Ana Paula, onde cumprimentou os bêbados de sempre e disse que estava na área novamente.

Atravessou a via até chegar à padaria Maria Farinha, porque do lado esquerdo da rua, naquela altura, nem carro e nem gente fica na calçada, já que um poste milenar coloca, todos os dias, os moradores do bairro em perigo diário. Sim, diz ela, perigo mesmo. Não pensem que estou exagerando, argumenta aos incrédulos. Quando chegou à frente da Escola da Ilha, sua irritação entrou em erupção, pois a calçada estava inundada de automóveis. Foi quando encontrou alguns carros com os condutores e não se conteve. Como pode, vocês estudam, têm estes carros bonitos, têm dinheiro, colocam os filhos para estudar em escola particular e, em vez de exigirem escola pública de qualidade, ficam aí estacionados sobre a calçada? Uma moça resmungou algo como: “morre velha caquética”. Dona Lindomar silenciou consigo: “coisa que não acaba neste mundo é gente besta/ e pau seco”.

 

 

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