Num teatro em Mendoza – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 13/11/2013

Num teatro em Mendoza

Estive pela primeira vez em Mendoza, na Argentina. Fui participar de um congresso de literatura. Além de aproveitar todas as maravilhas da cidade, resolvi também ir ao teatro. Olhando a programação oficial da cidade vejo que há algumas peças locais em cartaz. A primeira peça que eu assisti tinha um nome bastante atraente: “Desangrados por una promesa que no cumpliste”. Chegando ao simpático Teatro Quintanilla, construído dentro da praça principal da cidade, percebo algumas semelhanças com o teatro que tenho visto no Brasil. Primeiro a semelhança do público: tipos alternativos, cabelos diferentes, muitos jovens, algumas senhoras. Depois a mania de só abrir o teatro dois minutos antes do horário estabelecido para iniciar a peça. Algum atraso e alguns pais que levam seus filhos pequenos e barulhentos. A peça só tinha de interessante o título mesmo. Era de um amadorismo atroz, cheia de clichês e do humor mais rasteiro e tinha duas horas de duração. Eu me perguntei várias vezes como eles conseguiram ser colocados na programação oficial da cidade e ocuparem um palco importante como o do Teatro Quintanilla. Depois lembrei de que no Brasil isso também é comum, como é comum o público, muitas vezes, aplaudir de pé algo tão ruim. Aqui ocorreu um agravante: houve aplausos em várias cenas abertas. O meu primeiro contato com o teatro mendozino foi decepcionante, mas não sou desses que julga todo um grupo por causa de um indivíduo e, no dia seguinte, resolvi ver outra peça, dessa vez com um nome mais prosaico: “La felicidad”. O teatro se chama Nave Cultural e está numa fábrica abandonada que virou centro cultural. A peça é bem mais profissional, tem boa direção e bons atores, mas peca pela longa duração e pela pretensão de misturar metalinguagem com toques de absurdo. O público era mais sério e os alternativos não estavam tão presentes. A peça também teve o feito (ou o defeito) de “expulsar” quatro velhinhas que, acredito, não aguentaram ver algo tão sem sentido. É certo que a minha amostragem foi pequena, mas já deu para perceber que podem mudar a geografia, o idioma, o público, mas o teatro continua sendo sempre uma surpresa, ora interessante e reveladora, ora de uma ruindade que nos dessangra por uma promessa que ele não cumpriu.

Rubens da Cunha

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