Crônica da Semana, por Marco Vasques

Dona Lindomar na Pauliceia

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [18/11/2013]

            Dona Lindomar, após a velhice, revigorou seu desejo de viver. Não tem tempo ruim, pois é surgir um convite para uma nova aventura que lá estará ela, firme, arrastando os ossos pelas estradas. Na semana passada, foi convidada para conviver com algumas pessoas do teatro em São Paulo. Pensou, pensou. Avaliou, porque a gente do teatro de Bundópolis sempre lhe pareceu meio metida a besta, meio estranha e muito igual em tudo. Sobretudo porque no esforço coletivo de ser diferente, avalia a velhinha, tonam-se todos os mesmos. Então, é sempre a mesma ladainha, o mesmo discurso, as mesmas roupas e os mesmos preconceitos. No entanto, se tem experiência nova, lá está ela, prontíssima!

            A primeira experiência, após mais de 10 horas dentro de um ônibus, foi uma mesa-redonda, no Sesc Belenzinho, com Felipe Hirsch e Roberto Alvim, jovens diretores que, segundo o mediador, estão mudando a cena do teatro brasileiro. Dona Lindomar ficou de tocaia e tudo ouvia com atenção. Até que lá pelas tantas alguém da mesa disse que Shakespeare estava morto, que não fazia mais sentido ler e montar Shakespeare, que temos que subir na montanha de beleza construída por ele e tecer a visão de um novo homem, um homem que se distancie da Renascença. Dona Lindomar torceu seus poucos conhecimentos teatrais e preferiu dar novo crédito ao Shakespeare. Não demora muito e as discordâncias começam a aparecer, embora, no geral, grande parte dos dramaturgos que realmente importam fossem todos assassinados junto à ideia de subjetividade e eu. Achou a conversa apocalíptica demais e saiu para assistir a um espetáculo do Antunes Filho.

            Na tarde do dia seguinte, encontrou-se com Jacob Guinsburg, que dispensa qualquer apresentação, devido à sua contribuição à arte cênica brasileira. Ele, Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado, Anatol Rosenfeld — a lista não para por aqui — ajudaram a construir e revisitaram a história do nosso teatro. Com Guinsburg, a conversa foi mais amena, menos apocalíptica, e Dona Lindomar, após mais de três horas de conversa, já se sentia encorajada e autorizada a emitir opiniões sobre teatro, dada a fartura de sabedoria que generosamente lhe foi ofertada. Fez visita a Sábato Magaldi, esteve com Sebastião Milaré e Jefferson Del Rios. Enfim, saiu para beber com atores, diretores e poetas. Aproveitou e foi em tudo o que é museu, visitou sebos, esteve com editores e, após uma semana, já estava muito familiarizada com tudo e com todos. Então, rumou ao Terminal Rodoviário Tietê cheia de dúvidas, mas com a certeza de que o homem é o mesmo. O que muda são os disfarces, os cenários e as máscaras.

 

 

 

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