As viagens – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 20/11/2013

As viagens

O retorno à casa que nos faz felizes. Um retorno à raiz, à semente, aos começos que estabelecemos como rotina, conhecimento, estrutura mais fixa e controlável. Nos tornamos animais de parada, do estabelecer-se junto ao fogo, à rua, ao bairro. Inventamos uma fuga chamada turismo, alguns dias vagueando pelas plagas dos outros, conhecendo seus hábitos, sua arquitetura, seus modos de serem fixos. Comparamos com os nossos modos, achamos as diferenças, estabelecemos o melhor e o pior e depois voltamos àquele canto de segurança.

Alguns estabelecem a viagem como profissão. Caminhoneiros, pilotos e comissários, por exemplo, tem raízes andantes, tem no ir e vir pelas estradas e aeroportos a sua rotina. São reconhecíveis ao longe assim como conhecem os mesmos caminhos, as mesmas rotas aéreas, as mesmas paisagens. Talvez a diferença esteja apenas no movimentar-se, mas de resto há algo de fixo, de igual a todo mundo nessa gente que vive andando de um lado para o outro.

Há aqueles que viajam para que os outros, no conforto de seu lar, possam viajar junto, por isso tantos programas de televisão e na internet, tantas revistas cobrem esse nicho, estabelecem esse “sonho” a seus espectadores. É uma terceirização da experiência de viajar. Algo bem tradicional, que tinha na literatura um suporte poderoso e que agora investe nas novas tecnologias. Um dos exemplos seria o google street view que com seu carro fotógrafo nos permite ver tanto o portão de nossa casa, quanto uma cidadezinha perdida no interior da Holanda, citada num filme obscuro. Alguns dirão que não se trata da mesma coisa, viajar pela televisão ou computador e ir pessoalmente ao local. Que a experiência, por assim dizer, física de presenciar o lugar ainda é mais contundente do que apenas caminhar virtualmente pelo lugar, todos sabemos. Por enquanto, ainda há uma longa distância entre os dois modos de viagem, mas por quanto tempo? Alguns filmes de ficção científica já apontam que essa distância será cada vez mais curta. Bom, só o tempo dirá. Até lá, seguimos por aí, viajando e retornando ao “lar, doce lar” que nos estabelece como seres que pertencem a um lugar. Algo que nos faz ora visitantes, ora visitados.

Rubens da Cunha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: