Crônica da Semana, por Marco Vasques

MARIA JOSÉ

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [25/11/2013]

A tristeza dos olhos lembra aquelas frutas espezinhadas de final de feira. Sentada ao lado do fogão a lenha, num casebre de madeira escondido entre alguns aranha-céus, ela soluça na escuridão da cozinha. A cadeira que abriga seu corpo aparenta igual cansaço. A casa está praticamente cerrada. Apenas uma janela permite a entrada de alguma luz que se soma à chama tímida que fenece no velho fogão. A chama de Maria José também se esfacela. Ela é uma réstia de luz naquele ambiente. As mãos trêmulas estão unidas e o olhar fixo no retrato familiar.

Eram oito irmãos ao todo. Agora resta apenas Maria para carregar o baú de mortos na pele. Sem filhos e longe de todos os familiares, pois ninguém ficou na cidade após as sucessivas enchentes, ela vive na ausência do carinho. Faz alguns anos que duela com o silêncio, pois perdeu o encanto pela fala. Quando necessita sair, arrasta o seu corpo lento para não denunciar sua presença no mundo. Não tem mais pensamentos de amor. Depois que foi abandonada por Ludovico, nunca mais pensou em homem algum.

Não se enganem; não foi por falta de pretendentes que Maria desistiu do amor. Foi muito cotejada na vida. Sua beleza foi assunto do bairro por alguns anos consecutivos. Assim que Ludovico se encachorrou com Laura, o que não faltavam foram olhares e desejos sobre as silhuetas de Maria José. No entanto, cabeça firme, nunca imaginou que o amor pudesse morrer. Muito menos admitia que outro amor pudesse nascer. Daí a amargura foi tomando conta de sua alma, depois de seu corpo, até que a velhice a alcançasse. E alcançou. Se existem coisas pelas quais passaremos, pensava, é por um carrossel de desgraças e pela velhice. Maria lembra que na adolescência até chegou a gostar do Marion, mas ele a rechaçava por puro preconceito.

Sempre pensou que esta gente que vive dizendo que o Brasil é um país miscigenado, tolerante e que isso e que aquilo deveria olhar direitinho para os cantinhos da cidade. O discurso tudo agasalha, a vida é que é urgente de ação, era o que sempre dizia seu pai, que fora assassinado porque foi confundido — pela polícia — com um ladrão. Estava entrando em casa, no princípio da madrugada, e não teve conversa. Ele era negro, a noite escura e os policiais juntaram as escuridões. Tiro certo na hora errada. O silêncio da morte não tem cor. Os policiais estão soltos até hoje. Fosse um erro contrário, invertido teria gente querendo instaurar a pena de morte no país. O olho continua fixo no retrato familiar, que não passa de uma lembrança rasgada no tempo. Maria José duela com o silêncio para ver qual tristeza morre antes.

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