Andam por aí – Crônica da Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 27/11/2013

Andam por aí, aos borbotões, aos caimentos da vida. São pássaros, talvez, outros mais rasteiros, formigas, grilos, bichos menores. Andam por aí, às vezes visíveis, plenos, um tanto assustadores e assustadiços, noutras vezes invisíveis, nuvem ou névoa vista somente a distância. A proximidade causa o desaparecimento. São arco-íris, são arcos de cor no horizonte. Andam por aí remexendo os lixos e os corpos, alguns esfregam-se também nos copos, nas dores, nos baixos da alma. Outros são secos, métricos, intensos dentro dos limites que se impuseram. Andam por aí pragueando, esticando conceitos, vagueando sobre as certezas de todos. E vivem e fodem e almejam quase nada. Andam por aí pensando como Tom Zé que diz que tudo está no passado e que o futuro é uma brincadeira com a qual a gente tropeça. Andam acostados pelos bares, bibliotecas, escolas. Fazem suas escolhas e sofrem ou divagam, safos que são. Apolos também são alguns que andam por aí. Linha reta, beleza e candura em cada gesto. Outros mais fogo, mais carne derretida no vento, no medo, no desejo de sobrepor-se ao mistério. Andam por aí, mesmo que lhe digam, todos os dias, que não podem andar, não podem movimentar-se, tão intestinos, nas fraquezas e forças alheias. Pode-se pensar neles como um exército, um exercício sem chefe, sem roteiro. Andam por aí, desmantelando o que lhes convém: o amor, as igrejas, o sexo, os ventres grávidos das fêmeas, as rigidez macha dos machos. Andam por aí, vandalizando, rascunhando, abrindo trincheiras, inventando linguagens. Dizendo o que precisa e o que não precisa ser dito. Vasculham, aconselham, erram e são miragens, daquelas bem reais e enganadoras. Andam por aí escutando a vida, a morte, os contrários eternos, a casca das árvores, o barulho das cidades, as ruínas. São pharmakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, viagem e retorno. Andam por aí, pautando as horas, dando infernos a quem merece, acarinhando o invisível, a pele cansada dos velhos, as alegrias murchas dos bêbados. Andam por aí dizendo-se eternos, claustros, livres e alheios. São sementes, barro, pântanos e mar. Descuidam-se, protegem-se, armam-se todos os dias em contradições. Andam por aí, desde sempre, os poetas.

Rubens da Cunha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: