Crônica da Semana, por Marco Vasques

MAR ADENTRO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [02/12/2013]

Ele quer sair. É sábado. Além das tarefas escolares da semana, também é responsável por levar, todos os dias, a marmita de sua mãe, que trabalha na cerâmica da cidade. Não há diversão entre o trajeto. Some pelo trilho, cabeça baixa. Tem dias que tenta contar as pedras, mas são muitas para sua memória de menino. O sol lá fora parece chamá-lo. 0s primos todos jogando futebol no imenso pasto do avô. Alguns colegas se banham nas lagoas, e outros, os mais aventureiros, furam as dunas e se jogam mar adentro. Ele só ultrapassa as dunas para chorar. São sucessivas as surras que leva de sua mãe. Quando impedido de exercer sua liberdade, chora no lagrimado travesseiro de pena de galinha que ganhou de sua tia Luiza.

Não entende direito que tipo de dor se apossou de sua mãe. Sabe que tem algo ali que dói constantemente. Também não compreende os ataques e os surtos que transformam a ternura dos olhos daquela mulher em fúria cortante. Nesses dias, o melhor é não falar. Agir muito pouco. Só o necessário e solicitado. O ideal é ficar pelos cantos da casa. Se apossar dos silêncios, dos escuros. Caso contrário, tudo que tiver pela frente o atropela. Sarrafo com pregos, fios elétricos, vara de marmelo, toda a espécie de cinta feminina, cabo de vassoura, tapete; enfim, sua mãe não tem mesuras no ódio. O fogo que a consome só arrefece quando ele não pode mais chorar. Aí, ela, exausta, abraça o filho e se macula de desamparo.

Ele aprendeu mecanismos de defesa com o tempo. Aos poucos, foi se habituando às alternâncias de humor e já consegue, não sem muita tristeza, exercer a servidão absoluta, a submissão total aos olhares reprovativos que lhe são dirigidos. Mas é sábado. Todos brincam lá fora. E sua mãe o obriga a ficar, neste imenso calor, deitado em sua pequena cama de beliche, enquanto fuma incessantemente à frente da televisão. Soube na semana passada que o filho do Manuel Egídio tinha se libertado. Não se sabe direito o que aconteceu. Dizem que, de tanto apanhar de sua mãe, desembestou mar adentro. Sumiu na paisagem. Virou ponto de interrogação.

Pensou em chegar perto dela. Passar as mãos no cabelo, fazer alguma carícia e dizer baixinho que não tinha sono nesta hora do dia, que queria mesmo era brincar lá fora, juntar-se aos seus primos, aos amigos. Não parecia a ele que isso fosse muito. No entanto, sabia que estava lutando com o impossível. Aquietou-se no velho e surrado travesseiro. Um inferno passou por sua cabeça. Foi cansando com pensamentos de ódio. Tocar fogo na casa quando sua mãe estivesse dormindo ou desaparecer mar adentro foram as últimas imagens vencidas pelo cansaço. Dormiu.

 

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