Crônica da Semana, por Marco Vasques

O AMOR DE CESARINO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [09/12/2013]

Não há homem que não tenha tropeçado na vida. Passou a existir, a queda é inevitável. Uns têm quedas retumbantes, explosivas. Outros passam pela vida de forma mais morna, frouxa. No entanto, todos darão, mais dia menos dia, um beijo no rosto de Hades. Cesarino, homem de vida simples, tem como único vício o carteado. Não vive sem uma boa rodada de baralho. Casado. Sem filhos. Vida estável ao lado de Benedita, sua amada. E como Cesarino ama sua mulher. Não existe moça, mulher ou senhora do bairro que não inveje a devoção que ele nutre por ela. Aconteça o que acontecer Benedita é sempre acolhida, respeitada. Nem os boatos insidiosos de que nas noites de carteado outros homens frequentavam sua casa abalavam os olhares ternos e sorrisos com os quais ele ilumina sua pequena.

Contudo, as mulheres, pelo que se sabe, sempre foram as desgraças de Cesarino. A mãe era o seu verdugo na infância. Conheceu toda espécie de tortura pelas mãos de sua genitora. No orfanato, lá pelos dez anos de idade, ficou conhecido pelas marcas espalhadas pelo corpo, tanto apanhava. Tudo indica que as surras sucessivas eram motivadas porque Cesarino nunca segurou o mijo durante o sono. Todas as noites seu colchão amanhecia encharcado. E quanto mais bordoadas levava das assistentes sociais, mais a cama amanhecia molhada. Resultado. Fugiu.

Aos doze foi morar com uma tia rica. A vida parecia aprumar até que numa tarde qualquer, na ausência de todos, a empregada Luiza levou Cesarino para o quarto. Acariciou o menino. Beijou. Fez juras de que ia fazer algo bom, que não era para ele se preocupar. Alertou ainda que o mais importante de tudo era o segredo. No amor, disse, o sigilo das carícias nunca pode ser exposto. E pediu que ninguém ficasse sabendo, pois o que ocorre entre um homem e uma mulher, falou afegando seus cabelos, são impossibilidades de narrativa. Cesarino pouco entendia do assunto, mas o corpo reagiu às provocações de Luiza e ali descobriu as coisas da carne.

Aos quatorze anos já havia explorado toda a geografia corpórea da empregada e olhava para sua tia com picardia e desejo. A vida é matreira e quando Cesarino deu por si já estava casado com Benedita e se tornara um viciado no baralho. Uma e outra beata ainda olha para ele de maneira atravessada, já que Cerarino, antes de casar com Benedita, amou todas as mulheres da noite e nunca esconder sua predileção pelas damas decaídas. Certo dia, ao chegar à sua casa, a sina ressuscitou. Benedita esvaziou a casa e fugiu com o Dudinha. Ele emudeceu de causar comoção. Faz anos é uma paisagem fixa na janela à espera de Benedita.

 

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