Dias úmidos e quentes – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 11/12/2013

Dias quentes e úmidos

Dias úmidos e quentes dão a nota em meu corpo frágil. Lá fora, os carros berram e os pássaros insistem em seu canto. Lembro-me da bailarina que vi no último sábado. Ela era uma engrenagem bailante. No mais, a vida segue com seus percalços de pedra e poesia. Ao mesmo tempo em que uma criança morreu de leucemia, homens se digladiam num campo de futebol. Fazem de um jogo qualquer um teatro de sangue e violência. Tanta desordem no mundo, tanta injustiça que necessita ser destruída, mas nada acontece, querem fazer uma revolução pacífica, inclusive transformaram o guerreiro Nelson Mandela num fofo pacifista, tudo para manter o status quo de quem sempre esteve no topo dos privilégios. Na capital do estado, alguns moradores se reúnem para manifestar contra os mendigos presentes numa praia famosa. Na voz eugênica dessa gente um “fora daqui, aqui não é o seu lugar”. Por hora, são os mendigos, mas quem os impedirá de expulsar dos seus olhos outros indesejados: negros, homossexuais, deficientes, farofeiros, vendedores ambulantes nordestinos, a tal da gente diferenciada que não se encaixa nos padrões estéticos desses donos da praia. O mesmo está acontecendo nos shoppings no Espírito Santo e em São Paulo: a insistência em varrer tudo para debaixo do tapete, a insistência em negar tudo o tempo todo, em desqualificar sempre o discurso do oprimido. Em dizer que racismo, machismo, homofobia, pobrefobia não existem, são invenções dessa gente que não se adapta à normalidade, que não luta e trabalha para ter uma vida melhor, que não quer ser encaixar nos padrões estabelecidos. Dias úmidos e quentes. Alguém me diz que só tivemos uns 16 dias sem chuva. Mas o que interessa é que o natal está aí. Tudo enfeitado novamente, tudo apelando para o consumo imediato, supérfluo. E a letargia continua disfarçando o caos do trânsito, das periferias, da poluição contínua. Vamos comprando. A máquina do mundo continua em sua ferocidade engolindo muita gente, mas ela não consegue engolir a todos: ainda restam algumas vozes, alguns gritos que admoestam os opressores. São pequenos gestos anônimos, breves solidariedades, delicadezas que, aos poucos, enferruja todo o sistema de exclusão e preconceito que vigora por ai nesses dias quentes e úmidos.

Rubens da Cunha

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