Crônica de Semana, por Marco Vasques

UM CINEASTA EM BUNDÓPOLIS[1]

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [16/12/2013]

A coisa é mais ou menos assim: a arte é o território democrático por excelência. Na arte tudo se faz, tudo se pode fazer. A irritação é grande, mas não tem jeito. Tudo o que é poeta ruim tem direito de fazer seus versos caquéticos, tudo o que é pintor pode pincelar as suas florzinhas, tudo o que é ator, sem preparo algum, pode subir ao palco e gaguejar seu texto. Enfim, não escapa nada. Até analfabeto alfabetizado, que nunca leu um livro de literatura na vida, faz filmes baseados em obras literárias. O que fazer? Nada. Silêncio. Talvez a solução seja não assistir aos filmes, não ler os poemas, não ir às exposições. Até aí tudo bem. Cada qual com seu talento, cada qual com o seu direito de fazer o que quiser, mas, convenhamos, em Bundópolis a coisa toma proporção exagerada em tudo!

O poeta Rubens da Cunha já sentenciou que Bundópolis é a capital nacional do aplauso. Tudo o que é besteira aqui é aplaudida de pé. Filme ruim, sobretudo. Parece que fazer filme por aqui é ato religioso, ato de caridade. Artista aqui é, ele próprio, quase uma obra sacra. Não adianta! Por mais que se tente tirar a aura que se criou em torno do artista, não se consegue. E tudo aqui se torna expressão de aplauso. Por quê? Porque se legitima a mediocridade. É claro que falta de talento, preguiça e mediocridade não são crimes.

 Ninguém vai preso porque fez um filme ridículo, deturpando uma obra literária; ninguém vai para a câmara de gás porque cometeu uns poemas insuportáveis. A mediocridade não é crime; não está prevista em lei alguma. Portanto, a saída é conviver com ela, ainda que não se queira. A democracia irrestrita tem dessas coisas; joga a gente neste estado: o de ter que suportar o insuportável. Melhor assim, talvez. Já temos muitos assassinos, bandidos e corruptos para cuidar e prender.

O problema é quando tudo isso é agasalhado pela imprensa, pelas escolas, pelas universidades, pelos espaços culturais e pelo público que está cada vez mais sem referência.

Existe em Bundópolis um pretendente a cineasta ― porque as duas obras que ele apresentou até agora são mais colegiais que vídeo de formatura ― que tenta se estabelecer pela força da sua mediocridade. Em Bundópolis se carrega a sina do rebaixamento. Quanto pior a coisa, tanto melhor ela se torna. Aliás, o cinema em Bundópolis renderia muitas crônicas. Tem cada história! O fato é que o referido fazedor de vídeo caseiro piorado, em vez de trabalhar e estudar, fica por aí fazendo acusações a este ou àquele gestor público, esquecendo que não é nenhum santo mágico e que guarda muita poeira sob seus cabelos grisalhos.


[1] Qualquer semelhança é pura realidade. Esta não é um obra de ficção!

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2 respostas para “Crônica de Semana, por Marco Vasques

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