Tempo de repensar o mundo – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 18/12/2013

Tempos de surdina, de surdez que se propaga, tênue, sobre os corpos da massa. Tempos dos velhos clichês propagados ininterruptamente, apenas para perpetuar o quanto somos ordeiros e pacíficos. O quanto somos gado numa manada e devemos nos contentar como nosso meio metro quadrado de pasto. Há décadas Manuel Bandeira disse que estava farto do “lirismo comedido, do lirismo bem comportado, do lirismo funcionário público com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor”. Soubesse Bandeira o quanto ainda precisamos lutar para que esse lirismo “boa gente com os do andar de cima” sucumba, caia por terra, que outro lirismo que estabeleça justiça social, acesso aos direitos fundamentais, cuidados efetivos com as cidades, o meio ambiente, a vida em comum, se solidifique por aqui. Só que, para muitos, não podemos nos revoltar, não podemos quebrar duas vitrines e uma dobradiça, não podemos pular catracas, não podemos causar qualquer desordem na ordem do pasto. Até quando não poderemos mais sonhar com o tão sonhado lirismo do verso final do poema de Bandeira: “não quero saber do lirismo que não é libertação”? O poeta só queria esse lirismo, mas não nos é dado tempo, temos que consumir, temos que manter a ordem e o progresso. Tempos de anestesia, de circo e pão e circo, mas tempo de latência também. Os furúnculos na pele da sociedade estão cada vez mais constantes. Sintomas da doença visível que sempre insistimos em esconder, em negar, em jogar para os morros, mangues, longe das vistas e dos remédios que deveriam ter sido ministrados há décadas. Os sintomas estão por aí, vermelhando, inflamando, rompendo a pele do social. Hilda Hilst, outra que queria o lirismo libertação, pediu-nos que repensássemos a tarefa de pensar o mundo, e aos que que insistem em manter a vida ordeira e pacífica, mesmo que não haja paz ou ordem ao seu redor, Hilda avisa: “Senhoras e Senhores, olhai-nos: repensemos a tarefa de pensar o mundo, e quando a noite vem, vem a contrafacção dos nossos rostos, rosto perigoso, rosto-pensamento sobre os vossos atos.” Assim, é cada vez mais tempo de repensar o mundo e não desejar outro lirismo que não seja Libertação.

Rubens da Cunha

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