Crônica da Semana, por Marco Vasques

SÓ SE NÃO FOSSE NATAL

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [23/12/2013]

 

O relógio desperta desesperadamente. Um berro infeliz inventado para dominar a vida, pensa. Não entende como pôde chegar ao ponto de aceitar um trabalho que só humilha sua existência, que só diminui sua potência humana e que o transforma num robô imprestável que só aperta parafusos e cheira fuligem. Alguma explicação haverá de existir. Aquilo estava beirando ao insuportável. Tinha sua função estabelecida dentro da empresa; era um mero ajudante de produção e apertava um parafuso em compressores de geladeiras. A esteira passava e ele apertava, passava e apertava. Oito horas por dia nessa ladainha inútil.

Ganhava pouco, mas, como dizia seu chefe, é um salário acima da média da maioria dos indigentes deste país. O relógio, renitente, avisa que é urgente sair da cama. Vestir a roupa azul-escura suada e surrada. O ônibus da empresa estava a caminho. A cena, ao entrar no coletivo, era desesperadora, ao menos para ele, que já não suportava mais aquele ir e vir diário. Não pareciam homens, mas bichos levados para o abate. Por onde se olha na cidade tem um coletivo conduzindo cerca de cinquenta almas para o parque industrial. O trânsito começa lá pelas três horas da manhã e a via-crúcis se estende até alta madrugada.

O que o desespera é o apequenamento de sua alma, de sua vida. Não somente a sua, claro. Olha com algum desprezo para a multidão de apascentados. Todos ruminando suas próprias vidas. E, para ampliar sua sensação de nulidade, tem que conviver com a cidade envolta num clima de alegria por conta do Natal. As lojas entulhadas de gente comprando presentes. Nos mercados, as filas são insuportáveis. Muitos foguetes e luzes por toda a parte. Aquela anestesia geral por três dias. Muitos encontros forçados, muito presente dado por obrigação, muita mágoa jogada para debaixo do tapete. Daqui a uma semana tudo volta ao eixo até que, no próximo ano, o mito da vida feliz ressurja para uns dias de falsidades.

Tudo muito irritante; no entanto, fica quase impossível escapar. Tem mulher e dois filhos. Inúmeras vezes pensou em abandoná-los, em sumir no mundo, mas ainda assim estaria em outro campo de força de opressão. Tudo é uma questão de acomodação. Os amigos da linha de produção comentam a cesta que a empresa distribuirá. Comentam que a bolsa térmica deste ano é de boa qualidade, que tem alguns produtos novos que ajudarão a diminuir os gastos de final de ano. É preciso reinventar a mentira, pensou. Acreditar nela até transformá-la em verdade. Contudo, não consegue isso sem se desesperar. Aperta alguns parafusos na memória e deseja um beijo, mas só se não fosse Natal.

 

 

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