Crônica da Semana, por Marco Vasques

Ano novo, vida velha

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [30/12/2013]

A casa está vazia. Ela senta na sua antiga cadeira de balanço. Um hábito antigo que aprendeu com sua avó. Sempre que a tagarelice das festas de final ano acaba, faz-se necessário um pequeno átimo de solidão. Um pequeno momento de desconfiar de tantos sorrisos, presentes e afetos efusivos. Porque são poucos os que colocam as mãos nos escuros familiares. Na cozinha, a mesa cheia de pratos sujos, os copos desordenados e os restos de muita comida denunciam que mais uma vez não bastou a dedicação de três dias para preparar o bacalhau, o peru, escolher os vinhos, enfrentar filas em mercados e, ainda, comprar os presentes dos netos, quase todos insuportáveis e ridiculamente egoístas. Ela montou o cenário e todos vieram com seus disfarces e máscaras.

O carnaval de cinzas, no entanto, não acabou. Ainda virão mais alguns dias até que a apoteose se ilumine e feneça. Para ela é sempre a mesma coisa. Ano novo para uma vida velha. Há milhares e milhares de anos as mesmas coisas se repetem. Uma e outra evolução, uma e outra novidade, mas a cena é mais repetitiva que relógio suíço. Uma impontualidade, umas paradas. Alguns momentos de indecisão. Alguma sensação boa. Sexo, comida, família, velhice, e quando se vê a morte se aproxima. Ela encara tudo sem pieguice alguma, embora tenha uma vocação intrínseca ao lirismo inconformado. A razão para isso pode estar nas suas pequenas pretensões à literatura na juventude. Vê o mundo com um binóculo escuro. Não há luz que não tenha um ponto de escuridão.

Não fez a descoberta sobre a escuridão instalada na luz lendo compêndios científicos ou filosóficos. Quando criança, olhava insistentemente para o sol. Depois fixava o olho em qualquer ponto e a escuridão imperava, sempre. Pronto. Entendeu que a vida era simples como um ponto de luz que sofre desvios e vai morar em ângulos petrificados. Odiava os sermões dos padres e não entende como, ainda, em nosso tempo, o mundo se sustenta na fé louca alimentada por falsos fanáticos. As retrospectivas são a prova inequívoca de que mudamos muito pouco.

Ao pensar nisso, lembrou de seu filho Alberto. Ele não perde uma retrospectiva. Fica o ano inteiro anotando os fatos, as catástrofes, as mortes e todo ano vem com suas anotações. Acerta tudo e se acha muito inteligente, o coitado do Alberto. Volta a balançar a cadeira. Pela vidraça da varanda dá mais uma olhada para a mesa. As cadeiras ausentes de corpos. Há muita poesia na desgraça. Levanta com algum sacrifício e começa a desfazer a mesa. Joga a louça na pia e começa a limpeza, porque, afinal, alguém tem que meter as mãos na sujeira da família.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: