Ainda e outra vez ano novo – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no jornal A Notícia em 31/12/2013

E lá se vai quase um terço da segunda década do terceiro milênio da era cristã. À parte toda a imprecisão e inutilidade de se contar o tempo, seguimos com nossos rituais de passagem, de contagem contínua, mas que acredita se renovar a cada ano. Para isso, as retrospectivas, os melhores do ano, os acontecimentos marcantes, enfim, a espetaculização de tudo. Mas o que sai na TV, nos sites da internet, nos jornais é uma parcela mínima e nem sempre a mais importante do que realmente acontece. Lembrando que fama nada tem a ver com importância. O bom seria se os jornais e televisões fizessem retrospectivas dos pequenos gestos, das solidariedades anônimas que perpassam o dia a dia e não deixam o mundo degringolar de vez. Há um mundo de ajuda, comprometimento e parceria que ultrapassa as datas festivas, feitas muitas vezes apenas com o interesse de consumo, de produzir uma felicidade calcada nos presentes, nos votos vazios. Não que isso não seja importante, mas se estabeleceram como obrigação ou um protocolo social que obinubila o fato de que a vida não tem reboot, é um continuo avançar até a morte. Se viradas de ano servem para alguma coisa, seria pra isso: repensarmos nossos posicionamentos em relação à vida: quantos preconceitos carregamos travestidos de verdades? Quantas ideias defendemos que se vistas mais de perto são pouco éticas? Há um mundo em constante mudança e que precisa ser mudado constantemente. Que nesse ano deixemos de pedir mudanças alheias, ou de culpar os outros que não mudam, e iniciemos um processo interno de mudança. Podemos começar refletindo sobre as palavras do professor Eduardo Losso: “Penso que o cerne da possibilidade de mudança do sistema injusto que vivemos não está, primeiro, na ocupação das ruas e no enfrentamento espetacular e, depois, na conscientização individual, mas, sim, na ordem inversa. Somente no exercício de conhecer a si mesmo e na descoberta da capacidade de transformação de si, ou seja, na conquista de uma autonomia de amplo alcance, é que cada sujeito estará de fato apto a observar, examinar de que modo ele está implicado numa rede contextual de culpa e contrariar a efetividade perversa do sistema o máximo que puder”.

Rubens da Cunha

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